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Uma derradeira carta do Inferno

 

Max McLean stars as Screwtape in "The Screwtape Letters," uma adaptação teatral da obra de C.S. Lewis’ novel. GERRY GOODSTEIN PHOTO

Por Marcelo Lemos

Denominacionalismo e doutrinas de homens são fogo no rastilho neste ensaio bombástico homenageando famosa série de C.S. Lewis.

Chamo-me Wormwood. Fiquei famoso por minhas aparições nas páginas de um jornal britânico, o The Gardian, em artigos produzidos por C. S. Lewis. Ele, pensador cristão, anglicano, autor da consagrada trilogia Crônicas de Narnia, dispensa apresentações. Eu, para aqueles que não me conhecem, devo esclarecer desde início: sou um demônio.

Beckley Andrews (Wormwood)

Também devo apresentar meu Tio, Screwtape, que durante bom tempo, com toda paciência e dedicação, instruiu-me na arte de fazer as almas se perderem eternamente. As cartas que me enviava, contendo seus conselhos, acabaram apelidadas “Cartas do Coisa-Ruim” – pura maldade da oposição. Ele, claro, era também um demônio, só que muito mais experiente. Digo ‘era’ como força de expressão, já que não pode deixar de ser, nem que desejasse. Apenas aposentou-se, e hoje, sou eu quem catequiza os demônios mais novos por meio de cartas.

A carta que você tem em mãos é uma exceção. Nunca escrevo para as minhas vítimas. Na verdade, sempre falo com elas, mas disfarçadamente: um dos meus disfarces favoritos me faz parecido a um anjo bom; ‘anjo de luz’ como diria certo São Paulo, que, para minha sorte, vocês cristãos não costumam dar ouvidos (apesar de se dizerem o povo da Escritura).
“Porque você lhes escreveria?”, perguntou-me tio Screwtape, adivinhando minhas intenções. Sinto, incomodado por certa nostalgia, uma vontade imensa de agradecer. Ora, sei que a gratidão não é algo possível à natureza de alguém como eu, mas tem coisas que vocês entendem melhor por antropoformismos, bem sei. Metafísica de botequim à parte, deixem-me ser grato! Ah, tenho tantos motivos! Pode ser até que lhes escreva outras vezes, mas hoje o tema da minha gratidão é por vocês terem se esquecido do mero cristianismo.

Uns querem ‘pentecostalizar’ o mundo, outros ‘prebiterianizá-lo’, outro tanto só pensa em ‘anglicanizar’…

Mero Cristianismo, escrito assim com letras maiúsculas e tudo mais – como iria preferir o já citado C. S. Lewis -, é aquele que não oferece ajuda “a ninguém que esteja hesitante entre duas denominações cristãs”. Em outras palavras, é pregar Cristo por Cristo, Cristo na Cruz, Cristo no Gólgota, Cristo à destra de Deus, … Ressuscitado. Posto de outro modo: mero cristianismo é não sucumbir à tentação de transformar tradições humanas em Dogma Cristão. Mas vocês, minhas vitimas!; já não sabem o que é isso! Uns querem‘pentecostalizar’ o mundo, outros ‘prebiterianiza-lo’, outro tanto só pensa em ‘anglicanizar’. Já encontrei até quem ache que os que negam o Dispensacionalismo serão “deixados para trás”. Também me lembro de certo pregador berrando que “crente que não fala em línguas não tem combustível para subir!”. Tudo isso é música para os meus ouvidos!

Confesso que cheguei a me sentir inseguro algumas vezes. Por exemplo, quando o sangue dos mártires lavou o paganismo do Império Romano. Mas, logo o poder subiria a cabeça de alguns, e a coisa meio que desandou. Depois veio certo monge, com mania de me ver em tudo quanto é lugar. E acho que ele realmente me viu, pois percebeu o que eu fazia, e tratou logo de me exorcizar com 95 Teses. Daí pareceu-nos bem promissor tentar fazer estes cristãos, novos, reformados, cometerem os mesmos erros de seus pais, sem que pudessem dar conta disso. Como?

Uma historinha de dormir que tio Screwtape nos contava à beira do Lago Fumegante ajudou muito na elaboração de um plano. Ele nos dizia sobre o modo correto de cozinhar um sapo vivo. Primeiro, coloca-se o sapo numa panela fria, que vai sendo aquecida pouco a pouco, até que o sapo cozinhe vivo.

Ora, nunca tentei fazer isso com um sapo, mas quase sempre dá certo com vocês, cristãos. Um pouco de fermento leveda toda a massa. Um pouco aqui, um pouco ali, um acréscimo aqui, outro lá. Pouco a pouco, como no passado, vocês foram transformando novas tradições em novos Dogmas, e aquilo que era uma Reforma, virou apenas cópia, e, cá entre nós, da mal feita.

Um Cristianismo puro e simples tornou-se algo tão estranho a vocês, que facilmente os convenci a buscar coisas mais extravagantes. O Cristo crido e pregado por vocês é completamente irreconhecível, mesmo para alguém como eu, que pude vê-lo de perto no Getsêmani. Ele não ficava grilado com roupas, cerveja, cigarro; não ensinava cobertura espiritual, sacrifícios financeiros, plantações de ‘sementes’, e tão pouco sobre o quanto os cristãos devem ser felizes, saudáveis e consumistas. A pureza e a simplicidade da sua mensagem, creiam-me, o tornariam um herege em muitas Igrejas atuais. Vocês o acusariam de bêbado, amigo de pecadores e talvez até de bem humorado demais!

Adoro vê-los satanizar Mickey Mouse e Harry Potter, enquanto seus ídolos musicais possam de estrelas, cobram cachês milionários e distribuem autógrafos.

Isso me faz lembrar outra parábola interessante, essa contada por Jesus, e seria terrível para nós, no Inferno, se os cristãos tivessem aprendido alguma coisa dela (sorte minha!). Vocês certamente se lembrarão dela, mas talvez imaginem que ela valia apenas para os fariseus. Sim, Jesus disse que eles coavam mosquitos e engoliam camelos – felizmente vocês não aprenderam a lição.

Adoro fazer vocês dividirem Igrejas por causa de uma guitarra, ou uma eleição convencional, enquanto seus líderes se digladiam nos bastidores por meia-hora na televisão, ou por cargos eclesiásticos. Adoro vê-los satanizar Mickey Mouse e Harry Potter, enquanto seus ídolos musicais posam de estrelas, cobram cachês milionários e distribuem autógrafos. Divirto-me ao ver que não percebem que o verdadeiro satanismo de Potter, o humanismo, desde muito está canonizado nos hits e palavras de ordens de seus pastores, bispos e apóstolos…

Ah! Mesmo assim batem em seus peitos, cheios de orgulho e autoconfiança: “Não somos como os seguidores do Papa! Nós seguimos apenas as Escrituras!”. Será? Pouco me importa, já que os resultados me tem sido satisfatórios.

Dia desses, aliás, recepcionamos aqui um grupo interessante de novos hospedes. Um deles tentando simular um Shofar com as mãos trêmulas, desesperado para afastar o que julgava ser apenas um pesadelo, divertia-nos a todos. Menos seus três companheiros. Os outros três, apesar do desespero da situação, tentavam montar uma agência para evangelizar e converter o Inferno – apenas não conseguiam decidir se isso se deveria acontecer pentecostalizando, arminianizando ou luteranizando o submundo do Encardido.

É por isso todo o meu esforço para afastá-los do Mero Cristianismo. Porque se começarem a acreditar que o Evangelho da Graça é suficiente, estaremos perdidos aqui em baixo, no submundo. Neste caso, o sonho de Spurgeon, sobre o céu estar mais cheio do que o Inferno, poderia se tornar realidade em segundos. Muito mais produtivo é fazê-los acreditar que a Graça não é o bastante. Você deve ser convencido que precisa também de uma lista de mandamentos humanos, uma coleção de “pode-não-pode”, não importa qual, nem escrita por quem, basta que haja a tal lista e, ainda melhor, se a virem como a mais perfeita entre outras tantas listas escritas por homens circulando por ai…

Paro por aqui, para não correr o risco de, ao invés de simplesmente agradecer, terminar alertando-os. Deus me livre! A gente se vê… Ou não?

Marcelo Lemos é colaborador do Genizah e editor do Olhar Reformado.

Marcadores: denominacionalismo, Usos e costumes

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Usos e Costumes: Doutrinas de Deus ou dos Homens?

Thiago Lima Barros

A questão do comportamento cristão sofre um debate sem paralelo nos últimos duzentos e cinquenta anos. Nesse período, surgiram interpretações sem precedentes anteriores, que terminaram por se tornar majoritárias, ao mesmo tempo em que buscavam justificativas para seus entendimentos ao longo das Sagradas Escrituras. Refiro-me às chamadas doutrinas de usos e costumes, muito em voga principalmente no meio pentecostal histórico, do qual constituem um traço cultural bastante arraigado.

A cerveja do pai da reforma.

Até meados do século XVIII, questões como vestuário, uso do álcool, acesso à informação e à arte seculares, dentre outras, eram desconhecidas da igreja cristã. Mesmo porque o padrão de indumentária europeu era uniforme, as restrições à leitura se restringiam ao Index romanista.
Lutero fabricava sua própria cerveja (na verdade não ele, mas sua esposa Catarina), e Calvino recebia, como parte de seu salário anual em Genebra, sete tonéis de vinho. A igreja era doutrinada a usufruir de tudo com moderação, como produto da Graça de Deus, e não se deixar dominar por nenhuma delas.

Calvino é marca de cerveja européia.

Todavia, o início do movimento metodista nas Ilhas Britânicas veio acompanhado de uma reversão de tendência quanto a esses assuntos, a começar pela questão das bebidas alcoólicas. À época, com o advento da Revolução Industrial, as cidades não oferecem infraestrutura suficiente para atender às demandas da população que aflui do campo para trabalhar na indústria nascente, o que inclui a oferta de água potável. Bebidas destiladas e fermentadas passam a substituir a água. Porém, o ambiente de pobreza extrema em que viviam os operários propicia os excessos no uso de bebidas. A embriaguez se torna uma constante, e se transforma num problema social.

John Wesley foi o primeiro a se insurgir contra os excessos do álcool entre os crentes, e foi o primeiro a articular um movimento de proibição do seu uso. Em seus sermões, Wesley reprovava o uso não-medicinal de bebidas destiladas, como conhaque e uísque, e dizia que muitos destiladores que vendiam seus produtos indiscriminadamente não eram nada mais do que “envenenadores e assassinos amaldiçoados por Deus”. Porém, os Artigos de Religião de Wesley, adotados pela Igreja Metodista Episcopal nos Estados Unidos em 1784, admitiam em seu Artigo XVIII que o vinho é para ser usado na Ceia do Senhor, e preceituavam, no Artigo XIX, que ele deveria ser ministrado a todas as pessoas, e não apenas aos clérigos. Da mesma forma, as recomendações para pregadores metodistas indicam que eles deveriam escolher água como bebida comum e usar o vinho apenas como medicamento ou na Ceia.

O Movimento de Temperança

J. Wesley, o precursor do movimento anti-alcool.

No entanto, o pensamento metodista acerca do assunto era compartilhado por poucas pessoas, até a publicação de um folheto de autoria do médico Benjamin Rush, um dos signatários da Declaração de Independência norte-americana, que deblaterou contra o uso de “espíritos ardentes” (álcool destilado), introduziu a noção de vício e prescreveu a abstinência como única cura.

Apesar da adesão de alguns pregadores proeminentes, o movimento perdeu força durante a Guerra de Secessão, para mais tarde ressurgir por meio da União Feminina pela Temperança Cristã, e foi tão bem sucedido na realização dos seus objetivos que Catherine Booth, esposa do fundador do Exército da Salvação William Booth, observou, em 1879, que quase todos os ministros cristãos estadunidenses haviam se tornado abstêmios. O movimento, liderado por feministas conservadoras como Frances Willard, conseguiu a aprovação de leis anti-álcool em vários estados, e atingiu o seu zênite político em 1919, com a promulgação da Décima Oitava Emenda à Constituição dos Estados Unidos (Lei Seca), que estabeleceu a proibição da venda e consumo de álcool no país inteiro, revogada mais tarde, em 1933, pela Vigésima Primeira Emenda.

Francis Willard ajudou a “secar” os E.U.A.

Inicialmente se opondo apenas ao álcool destilado, a mensagem do movimento de temperança foi mais tarde alterada para defender sua eliminação total, especialmente na Ceia do Senhor. Tal posicionamento foi em grande medida influenciado pelo Segundo Grande Despertar, que enfatizava a santidade pessoal e o perfeccionismo na práxis cristã.

Os efeitos jurídicos e sociais resultantes do movimento, como visto, atingiram seu pico no início do século 20 e começaram a declinar logo depois. Os efeitos sobre a prática da igreja foram principalmente um fenômeno do protestantismo americano. O Pentecostalismo e as Restrições Consuetudinárias – Porém, no ambiente pentecostal, que sofreu, como (e do) Movimento de Temperança um influxo filosófico bastante forte do Movimento de Santidade, (o qual, por sua vez, é resultado direto do Segundo Grande Despertar), o proibicionismo, longe de arrefecer, foi adotado como cláusula pétrea. Afinal, ainda não havia bases teológicas de fundo mais intelectual: tudo era mais voltado ao experiencialismo da glossolalia e da cura divina, o que enfatizava ainda mais a tese de separação artificial do mundo e de suas coisas.

Mais tarde, porém, mesmo com o aprimoramento teológico dos ministros pentecostais, as mudanças de postura foram poucas, e meramente pontuais, fora a tolerância com abusos na rigidez das regras, mormente em locais menos desenvolvidos economicamente. Logo, para além da proibição da ingestão de álcool, surgiriam outras questões nas quais a resposta era uma só: proibido.

Ademais, tanto o pentecostalismo como o neo-pentecostalismo, juntamente com metodistas e grupos afiliados ou decorrentes destes, são os únicos grupos que elevaram tais restrições ao status de doutrina; se não na teoria, pelo menos na prática diária. Os demais ramos da cristandade protestante rechaçam esse tipo de associação, muito embora tambem tenham cometido esse tipo de excesso ao longo da história. Basta ver, nesse ponto, o que sofreram dois músicos cristãos: o alemão Johann Sebastian Bach, que foi obrigado a conter sua criatividade diante do estilo simplório de música imposto pela corte do príncipe calvinista Leopoldo de Anhalt-Köthen; e o brasileiro Luiz de Carvalho, que era anatematizado nos meios batistas por tocar… Violão!

O principe os púlpitos – Spurgeon era fumador de charutos e virou marca. Um outro momento cultural.

Usos e costumes no pentecostalismo brasileiro

Otto Nelson

É com os pentecostais, mormente da Assembleia de Deus, que o proibicionismo do Movimento de Temperança deita suas raízes no Brasil. De início, essa influência não se dá de forma institucional: o debate sobre questões relativas à inserção do pentecostal no mundo, ao contrario do que alguns líderes querem fazer parecer, era intenso e muitas vezes descambava para o rompimento pessoal entre os pastores divergentes. Nessa fase (de 1930 a 1975), o tratamento dessas questões era eminentemente personalista: cada pastor decide acerca das regras comportamentais a serem seguidas pelo rebanho, e muitos o fazem de forma radical.

Foi o caso do presbitério da AD de São Cristóvão (fundada por Gunnar Vingren em 1924), o qual, n’O Mensageiro da Paz da primeira quinzena de julho de 1946, em decisão unilateral datada do dia 4 de junho, sob a presidência do missionário sueco Otto Nelson, estabeleceu regramentos draconianos sobre o vestuário e cortes de cabelo femininos.

Samuel Nyströn

A dureza da Resolução de São Cristóvão, como passou a ser conhecida, aliada à evidente misoginia que a perpassava, não deixaram de ser notadas na 8ª Reunião da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, realizada em Recife em fins de outubro do mesmo ano. Os convencionais exigiram a retratação da congregação carioca. Quase no apagar das luzes da rodada de reuniões, o Presidente da CGADB, o tambem missionário sueco Samuel Nyströn, faz publicar um texto intitulado “Dando lugar à operação do espírito”, no qual rechaça o zelo jacobino da Resolução. Não por acaso, Nyströn abre o artigo com a citação do capítulo 4, versículo 6, do livro de Zacarias: “não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito diz o Senhor dos Exércitos”.

Com a refutação, veio a retratação da AD de São Cristóvão, em janeiro de 1947, e um silêncio de 16 anos acerca de questões consuetudinárias. Elas só voltam à baila em 1962, e de forma pontual. Essa tendência é revertida em 1975, com a publicação de uma resolução na 22ª reunião da CGADB, realizada em Santo André (SP), contendo oito restrições comportamentais, de observância obrigatória para os membros das AD’s. Eis a íntegra da mesma:

E ser-me-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo, e separai-vos dos povos, para serdes meus (Lv 20.26).

A Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, reunida na cidade de Santo André, Estado de São Paulo, reafirma o seu ponto de vista no tocante aos sadios princípios estabelecidos como doutrinas na Palavra de Deus – a Bíblia Sagrada – e conservados como costumes desde o início desta obra no Brasil. Imbuída sempre dos mais altos propósitos, ela, a Convenção Geral, deliberou pela votação unânime dos delegados das igrejas da mesma fé e ordem em nosso país, que as mesmas igrejas se abstenham do seguinte:


1. Uso de cabelos crescidos, pelos membros do sexo masculino;

2. Uso de traje masculino, por parte dos membros ou congregados, do sexo feminino;

3. Uso de pinturas nos olhos, unhas e outros órgãos da face;

4. Corte de cabelos, por parte das irmãs (membros ou congregados);

5. Sobrancelhas alteradas;

6. Uso de mini-saias e outras roupas contrárias ao bom testemunho da vida cristã;

7. Uso de aparelho de televisão – convindo abster-se, tendo em vista a má qualidade da maioria dos seus programas; abstenção essa que justifica, inclusive, por conduzir a eventuais problemas de saúde;

8. Uso de bebidas alcoólicas.

Geziel Gomes

Um detalhe interessante: a resolução acima foi lida na Convenção pelo pastor Geziel Nunes Gomes, a pedido do presidente da CGADB à época, pr. Túlio Barros Ferreira, coincidentemente (ou não) responsável pela AD de São Cristóvão. Ambos se desfiliaram da AD anos mais tarde, aderindo às doutrinas heréticas da Confissão Positiva e do G-12.

Daí por diante, a tendência é de recrudescimento dessa postura até 1999, quando, por ocasião do 5º Encontro de Líderes da Assembleia de Deus (ELAD), ocorre uma espécie de aggiornamento assembleiano: sem abrir mão do positivismo exacerbado de Santo André, tenta-se contextualizar as exigências mais como recomendação do que como decálogo (ou octólogo) denominacional. Mas mesmo esse documento padece de um certo “complexo de Gabriela”, numa indisfarçável demonstração de soberba denominacional:

Quando afirmamos que temos as nossas tradições, não estamos com isso dizendo que os nossos usos e costumes tenham a mesma autoridade da Palavra de Deus, mas que são bons costumes que devem ser respeitados por questão de identidade de nossa igreja. Temos quase 90 anos, somos um povo que tem história, identidade definida, e acima de tudo, nossos costumes sãos saudáveis. Deus nos trouxe até aqui da maneira que nós somos e assim, cremos, que sem dúvida alguma ele nos levará até ao fim.


Conclusão

Nas faculdades de Direito, estudamos que o costume é um dos vários meios de integração do ordenamento jurídico, utilizados em virtude do caráter genérico dos textos legais, que não raro apresentam lacunas. Ele deriva da prática reiterada de dado comportamento, devido à convicção sobre sua obrigatoriedade (a qual, se violada, acarretaria alguma sanção), e seu uso deve ser uniforme, constante, público e geral.

Túlio Barros

No entanto, a história dos avivamentos pelos quais a Igreja Cristã passou a partir do século XVIII, malgrado seus benefícios espirituais, teológicos, éticos e sociais, trouxe um grave efeito colateral para essa mesma Igreja: uma prática de usos e costumes nascida não da convicção do corpo iluminado pelo Espírito Santo, como deveria ser, mas do tacão dos líderes. Embora siga uma linha pentecostal clássica, seja neto de assembleianos por parte de pai e creia que a conduta cristã deva ser diferenciada da que é corrente no mundo, creio que essa jurisprudência deve ser escrita nas tábuas do coração, e não imposta de maneira bonapartista pela liderança, por mais bem-intencionada que esta seja.

Nenhum cristão realmente nascido de novo em Cristo, em sua saníssima consciência, vai defender a libertinagem, vestimentas indecorosas, embriaguez, enfim, uma postura de evidente mundanismo. Precisamos, de fato, ser santos como o Nosso Senhor o é. O problema é que, no afã de vivenciar essa santidade, houve um retorno inconsciente ao legalismo mosaico e aos seus rudimentos fracos, e o bebê foi jogado fora junto com a água do banho. Ou seja, a fruição dos bens dados pelo Senhor ao ser humano (quem lê, entenda) foi relegada, em alguns casos, a uma condição de conduta pecaminosa, mesmo que não ofenda as Escrituras em momento algum.

Cuidados com o corpo e o vestuário são pecado? Jamais! Antes, evidenciam o cuidado que temos com o templo do Espírito Santo: nosso corpo. Sem extravagâncias, mas com elegância. E o vinho, não alegra o coração do homem (Sl. 104:15)? E, da mesma forma, a embriaguez é condenada (Pv. 20:1). Sem contar que o mau uso que se faz dos meios de comunicação não os torna invenções de Satanás. Afinal, se a televisão não podia sequer entrar nos lares dos crentes, como os herdeiros dos que contra ela verberavam hoje dela se valem? Enfim, os lineamentos para o usufruto das dádivas de Deus são explícitos na Bíblia: basta segui-los, pois todas as coisas nos são lícitas, mas não nos deixamos dominar por nenhuma delas (I Co. 6:12). Encerro rememorando o rasgo de sensatez que o Nosso Deus e Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo bafejou no coração do pastor Samuel Nyströn, por ocasião do debate acerca da Resolução de São Cristóvão, no gracioso libelo “Dando lugar à operação do espírito”, orando ardentemente para que todos os cristãos, lideres principalmente, façam dessas palavras sua prática diuturna de vida:

Em qualquer tempo, lugar ou circunstância, devemos lembrar-nos que não se consegue fazer a obra do Senhor por força nem por meios violentos, resoluções ou imposições, mas a obra do Senhor se realiza pela intervenção criativa de Deus e pela lei do crescimento externo da obra do Senhor, mas igualmente quando se tratar do crescimento interno desta, tanto individual como coletivamente.


Mesmo durante a Dispensação da Lei, a Lei não conseguiu outra coisa senão descobrir e pôr o pecado em atividade, tendo como resultado a morte (…) enquanto a fé não tinha vindo, a Lei teve um alvo como pedagogo: conduzir homens a Cristo. Mas, tendo vindo a fé, não estamos mais debaixo do pedagogo (a Lei), e nem devemos fazer ressuscitar leis ou inventar outras leis para que não fiquemos no lugar dos gálatas, que foram chamados insensatos e a respeito dos quais Paulo temia que todo o seu trabalho se tornasse vão (…) Cristo veio com a graça e, então, a Dispensação da Lei se encerrou. Em lugar do mandamento prévio. que foi ab-rogado por sua fraqueza e inutilidade, pois ‘a Lei nada fez perfeito’, foi introduzida uma melhor esperança, pela qual nos chegamos a Deus: Cristo, que é nosso Sacerdote, segundo o poder de uma vida indissolúvel (…) Portanto, o que realmente tem valor para nós é ‘a fé que opera por amor’, por isso não nos justificamos pela Lei ou leis, para não sermos decaídos da graça e separados de Cristo (Gl 5.6).


As ordenanças para manifestar humildade e servidade com o corpo servem para satisfazer a carne, o erro, e elas com facilidade arranjam os que se julgam mais santos do que outros, e isto resulta em inchação vã e cria espírito de fariseu, que é o maior impedimento para as bênçãos de Deus.


Há muitos países e muitas formas de se trajar neste mundo, bem como muitos climas diferentes, e tudo isto deve ser considerado, mas como a Palavra de Deus diz: ‘com modéstia e sobriedade’. O que a Escritura ensina em relação a este assunto é que as mulheres devem ser castas e tementes a Deus, tanto as que são casadas como as moças (…) lembremo-nos também que há muitas outras coisas que são igualmente perigosas para a obra do Senhor, que só pelo Espírito Santo poderão ser removidas, como o amor ao dinheiro (…) o homem ostentado justiça própria, criticando tudo e todos, é um indivíduo perigoso para o avanço da unidade da obra do Senhor.

Genizah

06-06-16 013

Rev. Ângelo Medrado, Bacharel em Teologia, Doutor em Novo Testamento, referendado pela International Ministry Of Restoration-USA e Multiuniversidade Cristocêntrica é presidente do site Primeira Igreja Virtual do Brasil e da Igreja Batista da Restauração de Vidas em Brasília DF., ex-maçon, autor de diversos livros entre eles: Maçonaria e Cristianismo, O cristão e a Maçonaria, A Religião do antiCristo, Vendas alto nível, com análise transacional e Comportamento Gerencial.

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Centenário do Pr. Enoque B. Medrado

Quarteto Castelo Forte e Amigos – Às Margens do Jordão

Moises Lôbo –  Uma Palavra sobre um homem que andou com Deus

Aquele Lindo e Doce Lar, canta o Pr. Ângelo Medrado

Medrado`s, Agregados e amigos cantam” Pudesse contar”

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Veja o vídeo – http://vimeo.com/58176598

Foi chamado para gozar das delícias eternas em 03/07/1984, com 72 anos de idade, feliz por findar seus dias exercendo sua função de MINISTRO DO EVANGELHO, embora no anonimato, como desejava.

Nascido em 28/02/1912, na cidade de Jequié/BA, filho de Angelo Barbosa Medrado (então Delegado da Missão Batista do Norte do Brasil) e de Maria Murtinho Medrado, deixou os irmãos Natanael, Dina, Angelina e Marta.

Convocado para servir o Exército, foi para Itabuna/BA, onde durante 6(seis) anos serviu como Cabo, recebendo muitas medalhas e menções de Honra ao Mérito, pelos feitos naquele Regimento. Aprendeu também o ofíco de Alfaiate e Pintor.

Deixou o Exército ao sentir-se chamado para o Ministério, e encorajado pelos familiares, atendeu à Voz de Deus, e , embora sem qualquer recurso e condições financeiras, rumou para o Rio de Janeiro onde conseguiu uma Bolsa de Estudo, e assim concluiu seu curso de Bacharel em Teologia no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil – Rio de Janeiro.

Consciente da Grande Luta que teria pela frente, foi consagrado em 17/10/1942, a convite da Igreja Batista de CACHAMORRA, na Cidade de Campo Grande-RJ. Casando-se em seguida (19/12/1942), com a Iberista ELZA DUARTE MEDRADO, da cidade de Pádua-RJ, filha de Gézio Gomes Duarte e Judith cardoso Duarte, na Cidade de Volta Redonda-RJ.

Animadamente o casal apresentou-se para o trabalho carente de “missões Nacionais”. Rumaram para Porto Velho, onde com sofrimento fizeram a Obra proposta pelo Senhor, e seguindo ainda a orientação da Junta de Missões foram para GUAJARÁ-MIRIM,onde foram abençoados com o nascimento da 1a. Filha Judite, e, onde reiniciaram um trabalho. A igreja estava fechada e haviam somente 3 membros para ajudá-los. Mas, imediatamente recomeçaram a evangelizar e o trabalho foi cada vez mais abençoado e enriquecido por Deus.

Lastimavam a falta de recursos para suprir suas necessidades, mas como bom alfaiate e totalmente vivendo pela Fé, Deus não deixava lhes faltar nada.

Quando se dirigia para Porto Velho, deixava a esposa Elza, cuidando de tudo, e a igreja permanecia cheia e crescendo cada vez mais. Em seguida foram designados, pela junta para irem trabalhar com os Bolivianos em Puerto Sucre.

Desenvolveram alí um profícuo trabalho, e, novamente, foram convocados,  pela Junta de Missões, a voltar a Porto Velho.

Em Porto Velho, trabalhando na Obra do Senhor, morando em uma choupana que quando chovia molhava tudo por dentro e, quando ventava, o telhado se descobria todo, alí nasceu o 2o. Filho do casal, Gézio. Mas, o impaludismo, ferozmente derrubou a esposa e sem apôio daqueles que os enviaram para o trabalho missionário, lutaram contra a maleita por mais 8 meses. Sem condições de continuar, venderam tudo que tinham e com o auxilio do sogro regressaram ao Rio de Janeiro.  Mas, Deus nunca o abandonou e se intitulou de “Sócio do Judeu Errante”.

Mesmo com tudo que sofreu, sempre manteve sua fé em Jesus Cristo, nunca desistiu da luta, pedindo sempre que Deus o sustentasse na Obra que lhe havia proposto, pedindo resignação e esquecer-se do passado, ensinando-o a com paciência e sabedoria a cumprir o seu Ministério pastoral, pedindo forças para a espôsa, que sofresse de pé, e não permitindo que a sua Fé fosse abalada.

Foi convidado a exercer o Pastorado da Igreja Batista de Londrina/PR, onde destacou-se como o precursor do trabalho Batista no Paraná, tendo dado assistência como evangelista-itinerante nas congregações e Igrejas das cidades de Rolândia, Cambé, Arapongas, Apucarana, Sertanópolis, Mandaguari, Maringá, Primeiro de Maio e muitas outras igrejas daquela região.

Permaneceu naquele estado durante 1 ano e meio, aproximadamente, onde nasceu a 3a. filha, Lêda, deixando aquele Ministério para exercê-lo em outro campo.  e por  onde passava sempre deixou boas recordações e era amado por todos.

Convidado pela Associação das Igrejas Batistas da região Noroeste do Estado de São Paulo, para atuar como pastor, evangelista e itinerante, e, aprovado por Deus, pastoreou por 2 anos a Igreja Batista em Penápolis/SP, onde nasceu o 4o. Filho, Solon, e 6 anos pastoreou a Igreja Batista em Promissão/SP, onde nasceu seu 5o. filho, Ângelo.

Na região Noroeste de S.Paulo, alem das igrejas que pastoreou atendeu tambem as cidades de Baurú, Pirajuí, Cafelândia, Avanhandava, Lins, Birigui, Araçatuba, Braúna, Guararapes, Valparaiso, Alto Alegre, Coroados, Andradina e até três Lagoas.

Ao deixar a região Noroeste, em atendimento à vontade de Deus, assumiu o pastorado da Igreja Batista em Água Rasa, onde permaneceu por um ano, deixando-a para aceitar o convite da 1a. Igreja Batista de São Paulo , para organizar em igreja e pastorear a então Congregação do Bairro do Limão, onde permaneceu durante 17 (dezessete ) anos, contruindo o atual templo,  sentiu-se forçado a deixar aquela igreja que tanto amou, morreu manifestando o desejo de um dia retornar àquela igreja do Limão onde deu tudo de sua vida.

Ao sair de lá, aceitou o convite de seu cunhado para lecionar no colegio, na cidade de Rezende/RJ, permanecendo ali por 1 (um) ano e, deixando aquele colegio para aceitar o convite da Igreja Batista Monte Horebe, em Americanópolis?SP, onde pastoreou a igreja por aproximadamente 8 anos.

Mesmo como membro da Igreja Batista Monte Horebe, aposentado pela misericórdia de Deus, com pequeno salário, desejava morrer pastoreando uma Igreja e Deus atendeu o desejo de seu coração e foi convidado a pastorear a Igreja Batista Central de Casa Verde (no Bairro do Limão), como que por ironia, pois grande parte dos seus membros eram oriundos da Igreja Batista do Bairro do Limão que muito amava. Ficou como pastor, por mais de 3(tres) anos, deixando aquele ministério aceitando o chamado divino para deixar de sofrer nesta terra e ir para o lar celestial.Embaixada Pr. Enoque Medrado - Ig. Batista Monte Horebe_001

Sua honrosa missão divina foi a de levar a salvação para todos, não queria o sucesso, e nào permitia que o pecado imperasse no meio da Igreja. Para ele não interessava números. Em todo lugar que passou deixou incontáveis amigos e irmãos, seja no norte, no sul, no leste ou no Oeste sempre recebia o aprêço de todos.

Esquecido que foi por alguns, mas lembrado e amparado por onde passava, pois sempre encontra homens livres e de bons costumes que o reconheciam como irmão que pregava a verdade, cavando masmorras ao pecado e levantando templos às virtudes e viam nele um homem justo e perfeito e que foi, juntamente com o Grande Mestre, usufruir da morada construida para abrigar os escolhidos do Senhor.

A versão da musica “Um lindo e doce lar”, cantada pelo seu filho, o Pastor Ângelo Medrado, reflete a esperança de todos nós de que um dia, e está perto, de que todos estaremos juntos com o Pai no lugar para nós preparado, onde não haverá mais tristeza e nem dor e o Senhor enxugará toda nossa lágrima e viveremos em Paz e Felicidade para todo o sempre.

Manifestamos publicamente nossa melhor gratidão à Igreja Batista Central, em Casa Verde, que através dos anos insistiu e exigiu que o pastor Enoque Medrado ficasse por mais tempo exercendo o Ministério pastoral o que lhe deu muita alegria ao partir para a Glória Celestial em pleno exercício de sua missão que era pregar o evangelho e levar vidas à salvação.

Estamos certos que o nosso querido Enoque Barbosa Medrado, Pastor, esposo, pai, sogro,  avô, e hoje seria bisavô, exerceu seu ministério “Entristecido,às vezes, mas sempre alegre, pobre, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo”. II Corintíos 6:10, consciente de que “grandes coisas fez o Senhor por TODOS nós”… e que sempre levou a semente preciosa do amor de Jesus, revelado na cruz, embora chorando, gemendo, mas por Cristo vivendo, trazendo sempre alegre nos braços os molhos preciosos. Sendo de Cristo um obreiro fiel, perseverou na luta com muito fervor, sabendo que seu descanso aqui não seria, mas no céu, com Jesus, grande Glória receberia e foi tomar posse do seu tesouro. Aqui, na terra, foi posteriormente honrado, sendo reconhecido pela Câmara Municipal de São Paulo que deu seu nome a uma praça no Bairro do Limão e em Promissão-SP, teve seu nome dado a um Centro Esportivo anexo à Igreja Batista onde foi pastor.

Sim, foram formosos os seus pés, porque anunciaram a paz… formosos foram teus pés porque sem dúvida alguma foi um ARAUTO DE JESUS.

Que o mesmo Deus da paz, ( que nos consola), vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda do nosso Senhor Jesus Cristo.

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