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Cientistas criam a menor memória de computador até hoje

14/01/2012 – 13h35

 

DE SÃO PAULO

Cientistas nos Estados Unidos e na Alemanha construíram o menor HD de computador do mundo. Cada bit, que é a menor unidade de armazenamento de dado, é guardado em só 12 átomos.

É um salto tão absurdo que a tecnologia, se vingar, pode revolucionar o armazenamento de memória em dispositivos digitais.

Para ter uma ideia, um HD (disco rígido) moderno usa cerca de 62,5 milhões de átomos por bit armazenado.

A inovação foi desenvolvida por cientistas da IBM, nos EUA, e do Centro para Ciência de Laser de Elétrons Livres, na Alemanha.

MESMO PRINCÍPIO

Assim como os HDs convencionais, o novo dispositivo funciona a partir da magnetização de unidades.

O campo magnético, quando detectado, indica qual é a informação contida ali, em código binários (número zero ou um).

A diferença é que os pesquisadores estão usando um novo tipo de material, descrito como antiferromagnético.

São átomos de ferro magnetizados, numa superfície com magnetização oposta.

Para conseguir a precisão necessária para ler (e alterar) o campo magnético dos átomos desse nanodispositivo, os pesquisadores usaram microscópio de tunelamento.

O instrumento mudava a orientação dos átomos para gravar neles a informação desejada e também fazia a leitura. Eles experimentaram diversos arranjos de átomos e descobriram que o ideal, naquelas condições, era ter 12 átomos por bit.

A FRIA REALIDADE

Para armazenar a informação em tão pouco espaço é preciso que os átomos individuais estejam num nível de energia extremamente baixo. Resultado: o armazenamento só pode ser mantido a 268 graus Celsius negativos.

Um computador nessa temperatura seria impraticável. Contudo, os pesquisadores não antecipam dificuldades para levar a tecnologia à temperatura ambiente.

"Estamos usando baixas temperaturas para tornar nossa vida mais fácil na montagem desses bits antiferromagnéticos", disse à Folha Andreas Heinrich, pesquisador da IBM e autor do estudo. "Para levar tudo que sabemos com certeza até a temperatura ambiente teremos de usar 150 átomos por bit."

Ainda assim, seria uma revolução descomunal na capacidade de armazenamento. "O experimento tem grande potencial para aplicações futuras", diz Adalberto Fazzio, físico da USP não envolvido com o trabalho.

"O desenvolvimento tecnológico é sempre assim: a ciência básica mostra o caminho", afirma.

Para Heinrich, o mais complicado mesmo será fabricar um dispositivo prático.

"Operá-lo à temperatura ambiente não deve ser muito complicado", diz. "Um desafio maior é fabricar estruturas na escala atômica de forma barata e confiável. Isso está no coração dos atuais esforços da nanotecnologia e é um problema insolúvel."

Contudo, os pesquisadores estão otimistas. "Acredito que a ideia de usar antiferromagnetos como o componente ativo em dispositivos será de grande importância num futuro próximo -mesmo que não seja na escala que aplicamos no modelo criado nessa pesquisa", diz o cientista.

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Estudo britânico questiona por que somos bípedes

 

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE "CIÊNCIA E SAÚDE"

Atualizado às 19h39.

Dois cientistas britânicos usaram um punhado de equações para colocar em xeque uma das hipóteses mais aceitas para explicar por que, afinal de contas, os ancestrais da humanidade adotaram a locomoção bípede.

Para eles, alguns cálculos simples indicam que é bobagem a ideia de que a postura ereta foi uma forma de evitar o superaquecimento do corpo debaixo do sol africano.

Essa estratégia evolutiva só funcionaria se, antes disso, os primeiros hominídeos (os ancestrais do ser humano) virassem macacos sem pelo, coisa que provavelmente só aconteceu depois do surgimento do andar bípede.

Graeme Ruxton, da Universidade de Glasgow, e David Wilkinson, da Universidade John Moores em Liverpool, publicaram suas conclusões em edição recente da revista científica americana "PNAS".

Editoria de Arte/Folhapress

POR DEFINIÇÃO

Para os especialistas em evolução humana, andar com dois pés (em vez de usar quatro patas, como os outros primatas) é o que define a linhagem dos hominídeos. É um dos poucos consensos numa área de pesquisa polêmica, na qual ninguém se entende sobre quase nada.

Fora o fato do bipedalismo, porém, todo o resto ainda está no ar. Os fósseis mais antigos com indícios dessa característica chegam perto dos 7 milhões de anos, mas há quem questione as credenciais bípedes dos bichos. A característica só aparece de forma mais confiável há 4,5 milhões de anos.

E, quando se chega às causas do fenômeno, a coisa fica muito perto de virar um vale-tudo. Sem muitas evidências diretas nas mãos, os bioantropólogos acabaram atirando para todos os lados (veja infográfico).

Até uma suposta fase aquática da evolução humana chegou a ser invocada, já que seria mais fácil ficar dentro d’água e atravessar rios e lagoas com a postura bípede.

Nem todas as hipóteses são malucas assim. Uma ideia simples e elegante é levar em conta o equilíbrio de calor ligado às diferentes posturas no ambiente em que a postura bípede teria evoluído –para muitos, áreas abertas da África tropical.

O raciocínio é que, dependendo da posição do corpo, a luz solar esquenta o sujeito de maneiras diferentes. Por esse critério, ficar em pé debaixo de sol quando se é bípede dá menos calor do que fazer a mesma coisa sendo quadrúpede.

O problema é que esse cálculo tinha sido feito de forma estática, com o hominídeo teórico paradão. Os britânicos Ruxton e Wilson refinaram as equações originais, adicionando movimento a elas.

E aí a coisa muda de figura, afirmam os autores. Em movimento e debaixo de sol, um hominídeo peludo como os chimpanzés atuais, mas bípede, conseguiria caminhar, no máximo, entre 10 e 20 minutos antes de superaquecer e ter um caso sério de insolação.

Por outro lado, um hominídeo com pelos corporais esparsos e glândulas sudoríparas abundantes, como seus descendentes hoje, teria possibilidades bem maiores de dissipar calor e se dar bem com a postura ereta.

É por isso que eles concluem que o caminhar com duas pernas em ambiente aberto exigiria o corpo relativamente pelado como pré-requisito. Do contrário, não teria sido favorecido pela seleção natural.

A questão, claro, é saber qual dessas características evoluiu primeiro. De novo, as evidências são limitadas. A pista mais direta é meio constrangedora: os piolhos que afetam os pelos pubianos humanos. A linhagem deles existe há 3 milhões de anos.

Como os outros grandes macacos não possuem pelos pubianos, imagina-se que foi nessa época que os hominídeos perderam seus outros pelos e ganharam esses. Seja como for, parece ter sido depois da invenção evolutiva do bipedalismo.

Resumo da ópera: o jeito de andar característico da humanidade ainda é um mistério evolutivo.

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Cientistas adiantam ‘relógio do apocalipse’

 

Desastre em Fukushima e programa nuclear do Irã e Coreia do Norte tornam planeta mais vulnerável, alertam especialistas

Robert Socolow, professor da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, posa ao lado do Relógio do Apocalipse durante o simpósio do Boletim dos Cientistas Atômicos, em Washington. Quanto mais perto o relógio simbólico está da meia-noite, mais perto o mundo está de uma tragédia global

Robert Socolow, professor da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, posa ao lado do Relógio do Apocalipse durante o simpósio do Boletim dos Cientistas Atômicos, em Washington. Quanto mais perto o relógio simbólico está da meia-noite, maior a vulnerabilidade do planeta (Saul Leob / AFP)

Saiba mais

RELÓGIO DO APOCALIPSE
O BAS foi fundado em 1945 por cientistas da Universidade de Chicago, os mesmos que ajudaram a desenvolver as primeiras bombas atômicas para o Projeto Manhattan, o programa nuclear americano da II Guerra Mundial. Em 1947 o boletim criou o Relógio do Apocalipse, representado pela meia-noite, e a possibilidade de uma explosão nuclear, representado pela contagem regressiva até zero, para medir as ameaças à humanidade e ao planeta. Participam do grupo 18 vencedores do Prêmio Nobel.

Após um ano de discussão, cientistas decidiram adiantar em um minuto o ‘relógio do apocalipse’, instrumento simbólico criado em 1947 para apontar o risco de uma catástrofe provocada por armas nucleares, mudanças climáticas ou tecnologias emergentes. A informação é do Boletim de Cientistas Atômicos (BAS, na sigla em inglês).

O fator que mais contribuiu para a decisão dos pesquisadores foi o desastre nuclear de Fukushima, no Japão. A tragédia foi causada por um terremoto seguido de um tsunami em março de 2011. Além de Fukushima, os cientistas também veem com preocupação crescente os programas nucleares do Irã e da Coreia do Norte.

O relógio toma a meia-noite como a hora simbólica do apocalipse. Entre 2010 e 2011, o instrumento indicava seis minutos para a meia-noite. Com a percepção de que o mundo está hoje mais vulnerável, o relógio passou a apontar cinco minutos para o apocalipse, mesmo ‘horário’ cravado entre 2007 e 2010.

O momento mais crítico na história do relógio – dois minutos para meia-noite – foi apontado em 1953, auge da Guerra Fria, e o mais seguro – 17 minutos para a meia-noite -, em 1991, ano em que EUA e Rússia assinaram o tratado de redução de armamento.