
Se você abrir o Livro de Jó procurando profecias com trombetas, fogo caindo do céu ou impérios desmoronando — como acontece em Apocalipse ou Daniel —, vai acabar não encontrando. O livro de Jó faz parte da literatura de sabedoria da Bíblia; o foco dele não é prever o calendário do fim dos tempos.
No entanto, Jó traz uma das visões mais profundas e primitivas sobre o “fim de todas as coisas” sob duas perspectivas: a escatologia pessoal (o que acontece com o ser humano após a morte) e a restauração cósmica (quando Deus põe um fim ao caos).
O “fim do mundo” em Jó se resume em três grandes realidades:
1. A esperança do Redentor e a Ressurreição (O Fim da Morte)
No auge da sua dor, quando Jó achava que seu mundo físico já tinha acabado, ele professa uma das declarações teológicas mais impressionantes do Antigo Testamento. Ele olha para além da sua própria morte e enxerga o fim da história humana:
“Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus.”
— Jó 19:25-26Para Jó, o fim do mundo não é aniquilação, mas justiça e ressurreição. Ele usa termos jurídicos: o “Redentor” (Go’el, no hebraico, que significa o defensor ou resgatador da família) vai se levantar no “último dia” sobre a terra para dar o veredito final e restaurar os corpos decaídos.
2. O limite do Caos (O Fim do Mal)
Nos capítulos finais (do 38 ao 41), quando Deus finalmente quebra o silêncio e responde a Jó, Ele não explica o porquê do sofrimento. Em vez disso, Deus faz um “tour” pela criação e foca em duas criaturas monstruosas: o Behemoth (Jó 40) e o Leviatã (Jó 41).
¹⁵ “Contemple o Behemoth, que eu criei quando criei você e que come capim como o boi.
¹⁶ Veja que força ele tem nos lombos, que poder nos músculos do seu ventre!
¹⁷ Seu rabo balança como o cedro; os tendões de suas coxas estão firmemente entrelaçados.
¹⁸ Seus ossos são tubos de bronze, suas pernas são como barras de ferro.
¹⁹ Ele lidera as obras de Deus, mas o seu Criador pode aproximar-se dele com a sua espada.
²⁰ Os montes lhe dão alimento, e todos os animais selvagens brincam por perto.
²¹ Sob os lotos ele se deita, oculto entre os juncos do pântano.
²² Os lotos o cobrem com sua sombra; os salgueiros junto ao ribeiro o cercam.
²³ Se o rio transborda, ele não se assusta; fica seguro, mesmo que o Jordão salte contra a sua boca.
²⁴ Quem será capaz de capturá-lo pelos olhos, ou de prender o seu focinho em um laço?”
O Leviatã — Jó 41:1-34
O capítulo 41 inteiro é dedicado ao Leviatã, a criatura marinha indomável. Deus usa essa descrição para mostrar a Jó que, se o homem não consegue sequer encarar um monstro da natureza, como poderia questionar o Criador?
¹ “Você consegue pescar o Leviatã com anzol ou amarrar a sua língua com uma corda?
² Consegue passar uma corda de junco pelo seu nariz ou furar o seu queixo com um gancho?
[…]
⁷ Você consegue encher a sua pele de arpões ou a sua cabeça de farpas de pescar?
⁸ Se você puser a mão sobre ele, lembrará sempre da luta e nunca mais tentará!
⁹ Toda esperança de vencê-lo é ilusória; apenas vê-lo já é terrível.
[…]
¹² “Não deixarei de falar de seus membros, da sua força e da sua bela estrutura.
¹³ Quem pode arrancar a sua capa exterior? Quem se aproximará dele com uma rédea dupla?
¹⁴ Quem abre as portas da sua boca, cercada de dentes terríveis?
¹⁵ Suas costas têm fileiras de escudos firmemente selados.
[…]
¹⁸ O seu espirro emite luz; os seus olhos são como os raios da alvorada.
¹⁹ Da sua boca saem tochas de fogo; centelhas de fogo saltam dela.
²⁰ Das suas narinas sai fumaça, como de uma panela fervente sobre brasas de juncos.
²¹ O seu sopro acende o carvão, e da sua boca saem chamas.
[…]
²⁶ A espada que o atinge não tem efeito, nem a lança, nem a seta, nem o dardo.
²⁷ Ele trata o ferro como palha e o bronze como madeira podre.
[…]
³³ Nada na terra se compara a ele; criatura nenhuma foi feita tão destemida.
³⁴ Ele olha com desprezo para tudo o que é orgulhoso; ele é rei sobre todos os animais soberbos.”
O Contexto Dessas Passagens
Essas descrições aparecem no momento em que Deus responde a Jó “do meio de um redemoinho”. O objetivo teológico de citar essas feras (além de outros animais nos capítulos anteriores, como o leão, o cavalo de guerra e a águia) é fazer Jó perceber que o universo possui mistérios, perigos e forças que fogem totalmente ao controle humano, mas que estão perfeitamente debaixo da soberania e do cuidado de Deus.
Na mentalidade da época, essas feras representavam as forças do caos, do mal e da desordem que assolam o mundo. Ao mostrar que domesticou e tem controle absoluto sobre esses monstros, Deus revela como será o fim do mundo espiritual:
- O mal parece indomável para o homem, mas para Deus é apenas uma criatura na coleira.
- O fim da história humana garante que as forças do caos (o Leviatã) serão totalmente subjugadas e a ordem perfeita será reestabelecida.
3. A Restauração Final como um espelho do Novo Mundo
O desfecho do livro (Jó 42) funciona como uma miniatura daquilo que os teólogos chamam de “Novos Céus e Nova Terra”.
Jó perdeu tudo, enfrentou o seu próprio “fim do mundo” particular, mas no final Deus vira o cativeiro dele e lhe dá o dobro de tudo o que possuía antes. Na teologia bíblica, essa virada dramática é um vislumbre do que Deus fará com a criação inteira no fim dos tempos: redimir o sofrimento dos justos e restaurar o mundo de forma muito mais gloriosa do que no início.
Em resumo, para Jó, o fim do mundo não é sobre cenários catastróficos, mas sobre encontro. É o dia em que o Redentor pisa na terra, o mal perde o seu poder de machucar, e o ser humano finalmente vê a Deus face a face, com seus próprios olhos.E-books gratuitos:
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