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Diligência, Poder e Propósito de Satanás

Sermão nº 1459A

Escrito por Charles Haddon Spurgeon, em Merton, Sul da França.

“E logo vem o diabo, e tira de seu coração a palavra, para que não creiam e se salvem” " depois vem o diabo, e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo;" (Versão ACF)

É um grande consolo que tão grandes multidões estejam dispostas a ouvir a palavra de Deus. Ainda que muitos resultem ser como a pedra, ou como o solo junto ao caminho, ou como terra da qual brotam espinhos, no entanto, é uma circunstância alentadora que a semente possa ser semeada abundantemente sobre uma vasta EXTENSÃO da terra; Porém, não todos os pensamentos provocados pelo espetáculo de uma nutrida congregação são gratos, pois naturalmente surge a pergunta: O que resultará de toda essa pregação e toda essa audiência? Produzirá a semente celestial alguma colheita, ou cairá em terreno improdutivo?

Ao considerar esta pergunta, o cristão comprometido toma em conta a condição das pessoas à quem está dirigida, e recorda que muitos não estão preparados para o Evangelho. Longe de ser um campo sulcado para receber a semente, são como uma senda muito transitada. Ouvem o Evangelho, e até o presente aconchegamos esperanças por eles, ainda que não tenham a menor intenção de permitir à semente sua entrada ao íntimo de suas almas. O terreno de seus corações já estão demasiadamente
ocupados; outros pés o trilharão e rapidamente apagarão as pisadas do semeador, e quanto à boa semente, vai ficar onde ela caiu, mas não vai ser acomodada no homem interior. E isso não é tudo.

O observador perspicaz recorda que há, todavia outra dificuldade; o arquiinimigo de Deus e do homem, se opõe à salvação das almas, e, portanto, está presente com seu poder destrutivo onde quer que a semente da Palavra esteja sendo semeada. É deste tema que vamos falar agora: a atividade de Satanás durante a pregação do Evangelho. Ele esta fora de vista, mas não podemos permitir-lhe que passe desapercebido; Se faz um maior prejuízo se os homens dormem. Volvemos atentamente nossos olhos até ele, e demonstremos que não ignoramos seus ardis.

Nas palavras que temos diante de nossa consideração, nosso divino Senhor recordou a Seus ouvintes a pontualidade do demônio: logo vem o diabo" ; lhes recordou seu poder: e tira de seus corações a palavra"; e seu propósito, que é impedir a fé salvadora: " para que não creiam e se salvem". Nestes dias, quando tem lugar nossos serviços especiais, é recomendável trazer esses pontos a sua consideração, para que todos sejam advertidos contra do maligno, e assim, pela graça de Deus, se frustrem seus desígnios.

I – Primeiro, observem A PONTUALIDADE DO MALIGNO. Tão pronto como a semente cai junto ao caminho, as aves do céu a engolem. Nosso texto diz “e logo”, isto é nesse mesmo instante, vem o diabo". Marcos o expressa: em seguida vem Satanás. Qualquer outro poderia ser ocioso, contudo Satanás não o será nunca. Tão pronto como um camelo cai morto no deserto, os abutres se precipitam sobre ele. Nenhum pássaro era visível, nem parecia possível que houvesse algum em um raio de muitos quilômetros, mas pronto se vê umas manchinhas no céu, e em
seguida os gulosos estão abarrotando-se de carne: de igual modo, os espíritos do mal espreitam a sua presa de longe, e se apressam a cumprir seu trabalho destruidor. Um lapso poderia dar oportunidade ao pensamento, e o pensamento poderia conduzir ao arrependi mento, e , por isso, os inimigos se apressam para impedir que o ouvinte considere a verdade que há ouvido.

Quando o Evangelho afeta aos ouvintes em alguma medida, quando ainda um mínimo grau penetra seus corações, em seguida a pontualidade do diabo é mais veloz que o vôo da águia, para tirar de seus corações a palavra. Uma pequena demora poderia colocar a semente mais longe do poder satânico, e aquém da prontitude da atividade diabólica. Oh! , que fossemos a metade de velozes e ativos no serviço de nosso Senhor; que fossemos a metade de prontos para aproveitar cada oportunidade para bendizer as almas dos homens!

Sem dúvida Satanás atua as vezes diretamente nos pensamentos dos homens. Ele pessoalmente sugeriu para Judas que vendesse seu Senhor, e há inculcado muitas outras negras insinuações nas mentes dos homens. Como o insaciável abutre que comia saborosa e constantemente das entranhas de Prometeu, assim o diabo arranca os bons pensamentos que seriam a vida da alma de um homem. Insaciavelmente malicioso, não pode suportar que uma só verdade divina bendiga ao coração. O diabo envia na mente blasfêmias espantosas, imaginações impudicas, incredulidades indesculpáveis, ou vãs frivolidades como granadas infernais para destruir qualquer pensamento recém-nascido que olhe para Cristo e a salvação. Num momento seduz a mente, e em seguida a aterroriza; Seu único objetivo é desviar do homem os pensamentos do Evangelho, e impedir que se alojem na consciência e no coração.

Como Satanás não pode estar presente em todas as partes toda vez, frequentemente leva a cabo sua obra maligna por meio de seu serventes, enviando seus espíritos inferiores para que atuem como aves do céu, que engulam a semente, e estes a sua vez empregam diversos "agentes". Incidentes comuns da vida são usados com grande astúcia na transação maligna, de tal forma que mesmo por coisas indiferentes em si mesmas, cumprem-se os propósitos do adversário. Talvez o pregador tenha algo especial em sua maneira, em suas expressões, ou em sua aparência, e isto se converte no pássaro que devora a semente: o ouvinte fica tão atraído em algum rasa insignificante do ministro, que esquece a verdade que foi pregada. Talvez o pregador referiu alguma anedota, ou usou um exemplo, ou utilizou uma palavra que despertou uma recordação no coração do ouvinte, e a Palavra foi-se para longe de seu coração, para dar lugar a uma mera vaidade. Ou se o sermão foi preservado até sua conclusão, então encontrou um novo perigo; perdeu um guarda-chuva, uma confusão sem precedentes no Hall de entrada, um escárnio sem sentido surgido da multidão, ou o vestido absurdo de alguma pessoa desconhecida; qualquer destes elementos pode responder ao propósito do diabo e arrebatar a Palavra. Não significa muito se a semente é devorada por corvos negros ou pombas brancas, por grandes aves ou por diminutos pardais: se não permanece no coração, não pode produzir fruto, e daqui que o diabo toma medidas para levar a semente de imediato, de qualquer maneira. Se o diabo nunca visita um lugar de adoração, fará os ajustes pertinentes para estar ali quando tenha começado um avivamento:" e logo vem o diabo". Não cuida de muitos púlpitos, porem quando um homem sincero começa a pregar, “em seguida vem Satanás."

II – Em segundo lugar, vamos notar por um momento seu PODER. “E tira de seu coração a palavra." Não se diz que intenta fazer-lo, se não que realmente o faz. Olha, vem e vence.

A palavra esta ali, e o diabo a tira facilmente, como o pássaro leva a semente que esta junto ao caminho. Ai! Que influência tem o diabo sobre a mente humana, e qual ineficaz é a obra do pregador, a menos que ela vá acompanhada de um poder divino. Talvez algo da verdade se fixe na memória pela impactante maneira que foi expressa, mas o inimigo a saca inteiramente para fora do coração; e assim, a parte mais importante, o único de real importância de nossa obra, é arruinado.

Nós podemos ser suficientemente insensatos para apontar a cabeça unicamente, porem ele que é astuto mais adiante de toda astúcia, tem como alvo o coração. Se alguém convence os afetos, estará mais que contente. Para o coração do homem, a boa semente esta perdida, pois as aves do céu a devoram; se voltou para ele uma nulidade, não permanecerá nenhum sinal da semente que foi semeada junto ao caminho, depois que os pássaros a levem: assim eficaz é a obra do príncipe das potestades do ar. Quando Satanás pensa que vele a pena vir, vem em seguida, e vem com um objetivo, e cuida para que sua missão não falhe.

Seu poder deriva em parte de sua natural sagacidade. Caído como esta agora, uma vez foi um anjo de luz, e suas faculdade superlativas, ainda que pervertidas, viciadas e diminuídas pela excessiva influência do pecado, são, todavia, consideravelmente superiores as dos seres humanos sobre quem exerce suas artes. Ele é um rival superior ao pregador e ao ouvinte juntos, se o Espírito Santo não esta ali pra frustrar-lo. Também há adquirido uma renovada astúcia mediante a grande experiência em seu maldito ofício. Ele conhece o coração humano melhor que ninguém, exceto seu Fazedor; por milhares de anos tem estudado a anatomia de nossa natureza, e é versado em nossos pontos mais débeis. Nós todos somos jovens e ineptos comparados com esse antigo tentador; todos nós somos estreitos em nossos focos e limitados em nossas experiências, comparados com esta serpente que é mais astuta que todas as
bestas do campo: não deve nos surpreender que tire a palavra que é semeada nos corações de pedra.

Ademais, ele deriva seu principal poder da condição da alma do homem: é fácil que os pássaros recolham a semente que esta exposta sobre um caminho trilhado. Se o solo houvesse sido bom e a semente houvesse penetrado nele, haveria tido maior dificuldade, a tal ponto, que poderia haver sido anulado o intento; todavia um coração endurecido faz em grande medida a obra do diabo; não necessita usar de violência nem de astúcia; a palavra que não há sido recebida, permanece ali sobre a superfície da alma, e ele a toma. O poder do maligno provem grandemente de nosso próprio mal.

Oremos para que o Senhor renove o coração , para que o testemunho de Jesus seja aceitado de toda coração , e não possa nunca ser tirado. Grande é a necessidade de uma oração assim. Nosso adversário não é um ser imaginário. Sua existência é real, sua presença constante, seu poder imenso, sua atividade infatigável. Senhor, iguala-o e ultrapassa-o. Manda longe a mais imunda das aves do céu, e quebra o solo da alma, e permita que Tua verdade viva verdadeiramente e cresça graciosamente em nós. III – Nosso breve sermão conclui-se com o terceiro ponto, que é o PROPÓSITO do diabo. Ele é um grande teólogo, e sabe que a salvação é pela fé no Senhor Jesus; e por isto teme, mais que tudo, que os homens "creiam e seja salvos". A essência do Evangelho está radicada nestas poucas palavras. "Creia e serás salvo", e na proporção que Satanás odeia o Evangelho, nós devemos valorizá-lo o Evangelho. Ele não teme tanto as obras como a fé. Se ele pode conduzir aos homens a trabalhar, ou a sentir, ou a fazer qualquer coisa em lugar de crer, estará contente; porém ele tem medo da fé, porque Deus há tem
vinculado a salvação. Cada ouvinte deve ser saber disso, e , por esta causa, deve colocar sua atenção no ponto que o diabo considera digno se sua atividade mais importante. Se o destruidor labora para impedir que o coração creia, os sábios deverão estar alertas, e ver a fé como a única coisa necessária. "Para que não creiam e se salvem" Satanás tira a palavra se seus corações. Nisto há também sabedoria: sabedoria oculta na astúcia do inimigo. Se o Evangelho permanece em contato com o coração, sua tendência será produzir fé. A semente que permanece no solo, brota e produz fruto, e assim o Evangelho desdobrará seu poder vivo se permanece no homem e, portanto, do diabo se apressa em tirar a semente. A Palavra de Deus é a espada do Espírito, e o diabo não gosta de ver que permaneça perto do pecador por temor do que a mesma o fira. Ele sente medo da influência da verdade na consciência, e se não pode impedir que o homem a ouça, se esforça por impedir que medite nela. "assim que a fé é por ouvir, e ouvir , pela palavra de Deus": destruir isso que há ouvido é o método satânico para impedir a fé.

Aqui temos, outra vez, uma palavra prática para o ouvido da prudência: Mantenhamos o Evangelho perto da mente dos não convertidos; na medida do possível, semeemos uma e outra vez, por que vai saber uma semente penetre e de raízes. Os campesinos só iriam plantar certas sementes para por "uma para o bicho, e uma para o corvo e logo uma terceira para que com segurança crescesse", e nós devemos fazer algo parecido.

No livro de Jeremias, o Senhor descreve Sua própria ação assim : "Ainda que falei-lhes desde cedo e sem cessar, não ouvistes, e os chamei, e não respondestes": certamente, se o Senhor mesmo tem continuado a falar a uma raça que não responde, não necessitamos murmurar porque muito de nossa pregação pareça vã. Há vida na semente do Evangelho, e crescerá se pode ser introduzida na terra do coração; devemos , portanto, ter fé nela e não sonhar como obter uma colheita exceto pelo método fora da moda de semear a boa semente. O diabo evidentemente odeia a Palavra, porem nós, nós aferremos nela ,e semeemos ela por todo lado.

Leitor ou ouvinte, muitas vezes você já ouviu o Evangelho, porem, o ouviu em vão? Então o diabo tem que a ver contigo mais do que você imagina. É esse pensamento agradável a ti? a presença do diabo é corrupta e degradante, e ele tem estado pairando sobre ti como faz as aves sobre um amplo caminho, e pousando em você para tirar a Palavra. Pensa nele. Esta se perdendo da comunhão com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo por tua incredulidade, e em lugar disso estás tendo comunhão com Satanás. Não é isto horrível? Em vez de que o Espírito Santo more em você como mora em todos os crentes, o príncipe das trevas está convertendo a você em seu abrigo, entrando e saindo de tua mente a seu gosto. Você recordará o sonho de Jacó, de uma escada, e os anjos que subiam e desciam entre o céu e o lugar onde ele se encontrava: a experiência da Sua vida, irmão, poderia ser expressa por outra escada que desce ao escuro abismo, e os espíritos imundos vão e vem e sobem e descem por seus passos e chegam-se a você! Por acaso não te sobressalta isso? Que o Senhor te conceda que te sobressaltes. Desejas uma mudança? Que o Espírito Santo converta teu coração em boa terra, e então a semente da graça divina crescerá em ti, e produzirá fé no Senhor Jesus.

FONTE: http://www.spurgeon.com.mx/sermones.html

Traduzido do espanhol, do sermão “Diligencia, Poder y Propósito de Satanás”, traduzido por Allan Román, com autorização deste para português pelo Projeto
Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público
Original em inglês Sermão nº 1459A—Volume 25
Satan’s Punctuality, Power and Purpose

Tradução: Armando Marcos Pinto
Projeto Spurgeon | Pregamos a Cristo Crucificado.
Projeto de tradução de sermões, devocionais e livros do pregador batista reformado Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) para glória de Deus em Cristo Jesus, pelo poder do Espírito Santo, para edificação da Igreja e salvação e conversão de incrédulos de seus pecados.

Acesse em: http://www.projetospurgeon.com.br/

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Como entender que tudo coopera para o nosso bem?

 

Imagem do avatarPor Paulo César Nunes do Nascimento (perfil no G+ Social) em 19 de agosto de 2011

Como entender que tudo coopera para o nosso bem?

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Rm 8.28)

Talvez este seja um dos versículos mais citados por nós evangélicos, especialmente diante de situações adversas vividas por outras pessoas! Geralmente buscamos conforto e refúgio nesse versículo.

Mas muitas vezes, Rm 8.28 é usado meramente como último recurso ou fuga face às complexidades da vida cristã. Quando irmãos conosco as tragédias que atingiram as suas vidas, nos sentimos impotentes, não encontramos palavras capazes de produzir conforto e tranqüilidade, então recorremos a Rm 8.28 e dizemos: “É assim mesmo irmão, todas as coisas cooperam…”

No entanto, a experiência cristã tem mostrado que esse versículo é doce e fácil de ser digerido até o momento em que as tragédias da vida não batem a nossa porta e invadem a nossa casa.

Esta semana recebi um email com o seguinte conteúdo: (12/06/07)“Não sei se você conhecia um amigo nosso que fez o CLM aqui no passado, o Carlinhos e a esposa Cristina. O Gino e eu fomos ontem à tarde no sepultamento deles em Goiânia. Sofreram um acidente de carro e morreram os dois no local, deixando dois filhos, um de 13 (menina) e o outro de 10 (menino).”

Como estas crianças pré-adolescentes irão entender que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus diante da dura realidade de terem perdido pai e mãe no mesmo dia e numa fase da vida tão complicada como a pré-adolescência?

Como entender que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus quando se tem uma mãe maravilhosa, uma esposa dedicada, serva de Deus, que aos 55 anos descobre que está com câncer e 43 dias depois vem a falecer?

Como entender que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus quando se dedica toda a vida à tradução da Bíblia para um povo indígena na Colômbia, depois de publicado os guerrilheiros queimam todos os exemplares? O missionário vem para o Brasil começa um processo de revisão desse NT que fora queimado e aí descobre que está com câncer na medula. Pede a Deus apenas duas coisas: dê-me ainda mais um tempo para que eu possa completar esta revisão e ver os meus netos crescerem. Obtém como resposta NÃO, e pouco tempo depois morre. Como entender?

O apóstolo Paulo nos deixou nesse texto algumas orientações que, se forem bem assimiladas por nós, nos proporcionarão maturidade cristã, e nos capacitarão a lidar com as tragédias de forma menos dramática. Observem: não de forma calma, tranqüila, mas de forma menos dramática.

Para entendermos que Deus manobra todas as coisas (inclusive tragédias) para o bem daqueles que o amam, é preciso que tenhamos em mente que…

1. Deus trabalha em cima de projetos eternos. VS. 29,30

Observemos o resumo que Paulo faz do projeto eterno de Deus em relação aos seus.
…conheceu de antemão… Predestinou… Essas duas ações divinas se deram na eternidade.
…chamou… Justificou… Essas outras duas ações divinas se deram, aconteceram num momento histórico das nossas vidas. Ele nos chamou através da pregação da sua Palavra. Quando respondemos positivamente ao seu chamado, ele nos declarou justos em Cristo Jesus.
…glorificou… Esta última ação divina se dará no futuro, no momento da vinda de Jesus.

Ocorrerá no futuro? Ou já ocorrera no passado?

Essa declaração de Paulo é considerada a mais ousada expressão de fé das escrituras. A glorificação dos servos de Deus se dará em algum momento no futuro, mas ele fala dela como já consumada no passado.
O princípio que podemos extrair desses versículos é que o que Ele planejou na eternidade acerca das nossas vidas tem o seu desfecho final garantido. Independentemente dos contratempos e das tragédias que atingem as nossas vidas hoje.
Amados, o Senhor nosso Deus trabalha em cima de projetos eternos, de sorte que pra Ele não existe surpresas, acontecimentos inesperados, tragédias repentinas. Para Ele está fora de cogitação declarações tais como: “Não tive o controle da situação! Sinto-me impotente diante do que está acontecendo! Tudo aconteceu tão de repente!!!”
Todas essas coisas fazem parte da nossa experiência. De fato, nós somos surpreendidos por algumas tragédias, por desastres, por perdas repentinas; nós nos sentimos impotentes diante de sofrimentos prolongados vivenciados por nós ou por pessoas intimamente ligadas a nós.

De fato nós não conseguimos entender nem perceber que todas as coisas vão cooperar para o nosso bem. Isso é fato!
· Na verdade, algumas tragédias, alguns desastres, algumas perdas e alguns sofrimentos. São entendidos e explicados com o tempo. (José do Egito). “Vós na verdade, intentaram o mal contra mim, porém Deus o tornou em bem…” Gn 50.20a.
· Outras e outros, porém, nos atingem aqui, mas os seus motivos e as suas razões se processam numa dimensão acima da nossa, os quais ficam sem explicação para nós. De maneira que, quando tentamos ou alguém tenta oferecer uma explicação plausível, tece comentários e chega a conclusões equivocadas.
· Jó sofreu uma tragédia familiar, uma tragédia financeira, uma tragédia física, e uma tragédia matrimonial.
O que se passava com Jó aqui na terra eram efeitos, resultados, de algo que se processava numa dimensão espiritual que ele desconhecia.

Todos os seus amigos que tentaram oferecer explicações plausíveis, falaram bobagens.

Em situações como esta de Jó, em que as tragédias ficam sem explicações e nós não conseguimos enxergar como essas coisas vão cooperar para o nosso bem, precisamos entender que para Deus, numa dimensão espiritual acima da nossa, todas as coisas estão perfeitamente claras e são perfeitamente explicáveis.
Precisamos descansar e confiar, que de alguma maneira, que nós desconhecemos, Ele promoverá o bem para nós porque
Ele trabalha em cima de projetos eternos.

Mas em segundo lugar, para entendermos que Deus manobra todas as coisas para o nosso bem (inclusive as tragédias), preciso que tenhamos em mente que…

2. O laço amoroso de Deus para conosco não se rompe mesmo diante das piores tragédias da vida v.35

No v.35 Paulo faz uma pergunta retórica “Quem nos separará do amor de Cristo?” ao fazer esta pergunta Paulo não estava em busca de respostas. Ele a fez simplesmente para fins de argumentação; para enfatizar uma verdade que ele já sabia.
Em seguida ele passa a alistar uma série de circunstâncias incômodas que quando estamos no meio delas temos dificuldade de perceber e entender o amor de Deus por nós. V. 35.

O que Paulo está enfatizando com estás duas perguntas retóricas e que nenhuma dessas circunstâncias incômodas, nenhuma tragédia da vida é capaz de romper o laço do amor de Deus para conosco.
Mas, pastor, como entender o amor de Deus por nós diante das tragédias da vida?… diante de um casamento desfeito?… diante do abandono do marido?… diante da morte dos pais quando ainda se é muito novo?… diante das agonias de um parente com uma doença incurável?… diante do fato de ter sido e ainda ser rejeitado?… quando se perde o emprego ou a fonte de renda para o sustento da família?… quando se é abandonado pelos pais?…quando Ele remove das nossas vidas as pessoas que mais amamos?

Em circunstâncias como essas é extremamente difícil perceber e entender o amor de Deus.

No entanto, nas Escrituras, o Senhor afirma e reafirma o seu amor para com o seu povo, especialmente em circunstâncias em que o povo sente o abandono e o desamparo do Senhor. Em Is 49.14,15 está escrito:

“Mas Sião disse: O Senhor me desamparou o Senhor se esqueceu de mim. Pode uma mãe esquecer-se do filho que ainda mama, de modo que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse, eu, todavia, não me esquecerei de ti.”

No Sl 27.10 Davi fala desse amor imutável do Senhor:

“Ainda que meu pai e minha mãe me desamparassem, o Senhor me recolheria.”
Observemos que para afirmar e reafirmar a imutabilidade do seu amor para conosco, até mesmo em meio as tragédias da vida o Senhor usa como ponto de comparação o mais elevado nível de amor nos relacionamentos humanos: o amor dos pais para com os filhos.

Portanto, tenhamos sempre em mente que o laço amoroso de Deus para conosco não se rompe mesmo diante das piores tragédias da vida.

Mas em terceiro lugar, para entendermos que Deus manobra todas as coisas (inclusive as tragédias) para o nosso bem, é preciso que tenhamos em mente que…

3. O laço amoroso de Deus para conosco ultrapassa os limites da própria morte. Vs. 38,39

A morte impõe limites a existência terrena, mas Paulo diz que nem mesmo ela põe fim à ligação amorosa de Deus para com os seus servos, nem mesmo ela rompe, quebra, desfaz o laço amoroso de Deus para com os seus filhos.
Desde novo convertido eu aprendi que a Bíblia fala de três tipos de morte: física, espiritual e eterna. Também aprendi que o conceito básico que inclui esses três tipos de morte é separação. Separação do espírito e do corpo, separação da comunhão com Deus, separação eterna do Criador.
Se este conceito de morte estiver teologicamente correto, o que Paulo está dizendo é que nem mesmo a “separação poderá nos separar do amor de Deus”.

Na experiência humana a morte é o ponto alto, o ápice de uma tragédia. Tragédias que terminam com a morte de pessoas, são mais angustiantes e dramáticas.

Entender o amor de Deus em tragédias desse tipo é muito difícil do que em qualquer outra situação.
Geralmente as pessoas acham que se Deus as amasse não teria tirado a vida do seu ente querido; se Deus amasse o seu ente querido não teria permitido que ele morresse numa situação como aquela.
Pensamentos como estes geram revoltas, abalam a fé, levam muitas pessoas a desacreditarem do amor de Deus.
Em momentos assim é preciso maturidade cristã, é preciso visão correta da morte: Deus não deixou de nos amar porque o nosso ente querido morreu de forma tão trágica, Ele não deixou de amar o que foi vítima da tragédia, porque o seu laço amoroso para conosco, diz Paulo, ultrapassa os limites da própria morte.
Amados esses meus 22 anos de evangelho, uma das declarações mais belas que eu já ouvi face à dura realidade da morte foi de um indígena. Fazendo uma visita para uma irmã de sua comunidade que estava com câncer em estado terminal, ele disse:
“vá minha irmãzinha, vá em paz! O câncer pode comer a sua carne, mas não pode comer o seu espírito”. (Senhor Jair – etnia Dâw).
Esse homem tão simples, na simplicidade da sua fé, expressou maturidade, visão correta da morte. Mesmo matando-a, o câncer não seria capaz de pôr fim à sua existência espiritual, ao seu relacionamento com Deus numa outra dimensão, de desfazer, de romper o laço amoroso de Deus para com sua serva.

Em outras palavras, Paulo já havia falado sobre isso na carta aos Romanos 14.7,8: Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos para o Senhor vivemos; se morremos para o Senhor morremos. Quer pois, vivamos ou morramos, SOMOS DO SENHOR.

Pr. Paulo César Nascimento

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Haraquiri Teológico – Parte 1: Um reino sem súditos!

 

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Existe um movimento em progressão na igreja, que é a própria negação da igreja, e se resumiria na inadequação e acomodação dos conceitos mundanos a uma suposta vida cristã, não revelada como o sábio e perfeito conselho de Deus, pelo contrário, repudiada e condenada pela Escritura. Infelizmente a maior parte dos ataques que a igreja cristã sofre atualmente provém de suas próprias fileiras; o joio, misturado ao trigo, tem-se levantado para desarraigar o que Deus plantou, e assim fazer da igreja uma extensão do mundo, uma espécie de sanitário aparentemente higienizado e perfumado, mas que se resumiria a um local onde as pessoas defecam pelo chão e se esfregam nas paredes para limparem-se.

Seria um local onde alguns poderiam amenizar suas dores, mas que se resume a um paliativo, um anestésico que aplicado sistêmica e subliminarmente, afasta-os do Evangelho, impedindo-os de reconher a verdade, acomodondo-os à má-consciência, à mentira deslavada e vergonhosa, como é toda mentira. O problema é a impossibilidade de se limpar um cômodo enchendo-o de lixo e entulho; da mesma forma a alma humana somente pode ser despoluída pelo puro Evangelho, que trará ao homem doente a cura através do arrependimento pelo qual vem o perdão: "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos de refrigério pela presença do Senhor" [At 3.19] [1].

Os agentes infiltrados têm por objetivo levar a cabo o plano de tornar irrelevante o conselho do próprio Deus para os homens; e é dessa forma que os idealizadores do movimento agem [ainda que muitos adeptos não se aperceberam disso, cegados e iludidos pelos apelos do próprio coração]. Como Paulo nos alertou: "Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho, e que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si." [At 20.29-30].

Mas do que estou falando? De uma corrente que se diz evangélica e que trabalha laboriosamente contra o Evangelho chamada “movimento do não-senhorio de Cristo”.

Em linhas gerais, para quem ainda não sabe, este grupo afirma que alguém pode ser salvo sem a necessidade de se apresentar um fruto sequer. A salvação, pela graça, em si mesma não está atrelada à santificação ou ao testemunho que o salvo deveria dar, nem aos frutos que deveria produzir. De tal forma que, contrariamente ao que a Bíblia afirma, o cristão pode ser salvo mesmo sem arrependimento, sem fé, sem testemunho, sem saber que foi salvo, sem mesmo querer sê-lo, bastando-lhe apenas e tão somente a graça de Deus; uma graça que pode passar completamente desapercebida, e pela qual não se terá nenhum sentimento de gratidão. É como se eu usasse uma mesma camisa todos os dias, sem tirá-la do corpo, sem a concepção de que ela exista. Ou comesse atum todos os dias, em todas as refeições, e jamais me apercebesse do que estava comendo, e mesmo da existência do próprio atum. É claro que são fíguras de linguagem precárias, especialmente quando se refere à salvação, mas a ideia de um crente completamente alheio à sua salvação é algo muito mais absurdo ainda.

O que torna essa falsa doutrina algo realmente perigoso é o fato dela conter parte da verdade, de ter em seus princípios algo verdadeiro, mas que somente está ali para facilitar o estratagema enganoso de capturar os incautos para um sistema completamente falacioso, perverso e maligno. Uma mentira, ainda que tenha elementos verdadeiros, continua e permanece uma mentira. Basta uma lida na passagem em que o Senhor Jesus é tentado no deserto pelo diabo [Mt 4.1-11] para se perceber como a astúcia, a habilidade para o mal e para o engano, pode-se confundir com a verdade, camuflando os seus reais intentos. Como alguém já disse alhures: meia-verdade é mentira inteira!

Sabemos que a salvação é dádiva e favor completamente divinos, onde o homem não pode participar de maneira alguma, sendo apenas o alvo de toda a obra redentiva planejada e executada por Deus. Não se pode colaborar em nada com ela[Ef 2.8-9]. Mas ela pressupõe um processo, ainda que tenha sido decretada eternamente. E esse processo também é decretado, de tal forma que o salvo terá fé, arrepender-se-á, será regenerado, santificado, e dará frutos para a glória de Deus [não nesta seqüência, necessariamente]. Portanto, um salvo não precisará das obras para a salvação, mas as obras confirmarão a sua salvação. Portanto, nós, os salvos, somos feitos do alto, "criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" [Ef 2.10]. Em outras palavras, os frutos não precedem a salvação, mas a sucedem, de tal maneira que por eles é possível se saber a sua procedência. Como o Senhor nos diz: “Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis” [Mt 7.16-20].

Alguém poderá dizer: “mas, nessa passagem, Cristo está a falar dos falsos profetas e mestres”. É verdade, mas ela serve perfeitamente para os cristãos também, porque se é possível distinguir o engano e a mentira através dos maus frutos, é-se possível distinguir a verdade através dos bons. O cristão dará bons frutos que revelem a sua semelhança com Cristo e a sua filiação ao Pai.

O que o movimento do “não-senhorio de Cristo” proclama é que Deus salvará o homem ainda que ele não saiba, não queira, e não seja capacitado a testemunhar a sua eleição. Poderá mesmo continuar tão ímpio que não haja diferença em sua natureza. Mas tudo isso é avesso e alheio à verdade, ao que a Bíblia nos revela, porque o homem, para ver o reino de Deus, terá de nascer de novo. Foi o que Cristo disse a Nicodemus: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” [Jo 3.3]. Da mesma forma, o Senhor também disse que seriamos reconhecidos como seus discípulos se amássemos uns aos outros [Jo 13.35]; ou seja, os frutos são uma espécie de atestado daquilo que somos, do que nos tornamos pelo poder Deus. Se o homem mantém a sua velha natureza e não reconhece a necessidade do arrependimento, do perdão divino, e de se sujeitar ao senhorio de Cristo, esse homem permanece morto em seus delitos e pecados [Ef 2.5], e carece de ser vivificado por Deus.

É estranho que haja entre aqueles que se dizem discípulos de Cristo quem defenda o não discipulado a um salvo. O argumento é autocontraditório, pois se é-se discípulo de Cristo, recebe-se o ensino de Cristo, e com ele aprender-se-á. E se dizem que o discipulado é desnecessário, em si mesma essa afirmativa já é um ensino, um ponto ou princípio definido por um sistema de crenças, que foi ensinado e aprendido. Na verdade, essa é a condição para se proteger de maneira eficaz todo o sistema distorcido e inválido do "não-senhorio de Cristo", de forma que os tolos aprendam necessariamente um único aspecto normativo: o discipulado é supérfluo, pois nada se precisa aprender além dessa falsa premissa ensinada.

Interessante que a doutrina do “não-senhorio” reconhece a parte mais fácil para o homem [a salvação, pela graça de Deus], mas sem as suas implicações diretas [a servidão, a sujeição ao Senhor; que resultará na morte do velho homem e no surgimento do novo homem]. Paulo diz que estamos mortos para o pecado, então como é possível ainda vivermos nele? [Rm 6.3]. "Assim também vós considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor" [Rm 6.11]. Há um claro conflito de interesses entre o que dizem os proponentes do "movimento do não-senhorio" e o que a Bíblia nos revela. Ao ponto deles considerarem irrelevante o ato de se pecar ou não, pois já estão debaixo da graça, logo, quer pequem, quer não pequem, isso em nada afetará as suas condições de salvos. Para eles, qualquer alusão à Lei e à santidade não passa de legalismo, de hipocrisia, visto que ninguém consegue se ver livre totalmente do pecado. Ora, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. O fato do homem regenerado ainda pecar, não é o mesmo que pecar deliberadamente. Por deliberado quero dizer, convicto, decidido, disposto a levar às últimas consequências o ato pecaminoso. O homem regenerado, ainda que conviva com os seus pecados, sente-os como um peso, um fardo duro de carregar; ele titubeia e oscila entre o fazer e o não fazer antes de fazer; feito, arrepende-se e é perdoado por Deus. Mas mesmo depois disso, ele ainda é capaz de experimentar uma certa angústia, de se aborrecer, se entristecer, pois tem a nítida noção de que seu ato ofendeu a Deus. Como está escrito: "Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte" [2Co 7.10]. Por isso, alguém que se considera salvo e nunca tenha se arrependido diante de Deus, somente receberá o salário do pecado: a morte! [Rm 6.23]. Porque é impossível ser salvo sem ser servo, ou de receber a redenção sem se sujeitar ao Redentor. O que eles querem é um reino sem súditos, e súditos sem reino.

[Continua]

NOTAS: [1] Esta é uma perspectiva do ponto de vista temporal e humana, pois é certo que o perdão de Deus é eterno e imutável, assim como o próprio Deus é etrno e imutável; logo, muito antes de virmos a nos arrepender no tempo, ele já nos perdoou eternamente, pois a obra de Cristo na cruz foi decretada também na eternidade. Leia o texto "Santidade: Temporal ou Eterna?", onde desenvolvo melhor este ponto. [2] Haraquiri – Técnica de suicídio praticada por membros da classe guerreira japonesa. A pessoa que comete haraquiri faz uma incisão em seu abdome, de determinada maneira prefixada, e estripa-se a si mesma. O termo japonês para designar esse ritual é Seppuku. [3] Este texto é uma ampliação ao que foi publicado no blog "Cotidiano Cristão", cujo título é "Como ser ‘salvo’ e ainda ir para o inferno!" [4] Indico, como complemento, a leitura do texto "O que não é, pode não ser mesmo, se não for. Mas, e se for?", bem como a leitura do livro do pr. John MacArthur Jr. "O Evangelho Segundo os Apóstolos", publicado pela Editora Fiel.