
A expressão popular “mês do cachorro louco” atribuída a agosto carrega uma mistura de fatores biológicos reais, superstições históricas e ações de saúde pública. Embora o imaginário popular muitas vezes associe o período a um misticismo de “azar” ou catástrofes gerais (sendo também chamado de “mês do desgosto”), a raiz do termo aplicado aos cães tem explicações concretas.
Abaixo estão detalhadas a origem do termo e os fatos que dão sustentação (e também mitos) a essa fama:
1. A Origem Biológica: O Cio e o Comportamento dos Cães
O principal motor para a criação do mito está no ciclo reprodutivo dos animais influenciado pelas mudanças climáticas:
- Fim do Inverno e Variações Climáticas: No Brasil e em outras regiões do hemisfério sul, o mês de agosto marca a transição entre o inverno e a primavera. O clima mais seco e as variações de temperatura e luminosidade (fotoperíodo) estimulam alterações hormonais em muitos animais.
- Aumento do Cio: É estatisticamente comum que um número expressivo de cadelas entre no cio neste período.
- Disputas e Agressividade: Quando uma fêmea entra no cio, ela exala feromônios que atraem os cães machos. Isso faz com que dezenas de cães se ajuntem ao redor da fêmea, gerando disputas territoriais e sexuais violentas entre os machos. Vistos acuados, estressados e brigando com ferocidade nas ruas, pareciam aos olhos populares estar “loucos”.
2. A Conexão com o Vírus da Raiva
Antigamente, a expressão também esbarrava em um problema de saúde pública muito mais grave: a raiva canina.
- Como os cães brigavam muito em agosto e andavam em matilhas pelas ruas, se houvesse algum animal infectado pelo vírus da raiva no grupo, a doença se alastrava rapidamente por meio de mordidas.
- O vírus da raiva ataca o sistema nervoso central, provocando alterações comportamentais drásticas nos animais — incluindo extrema agressividade, salivação excessiva e desorientação —, o que reforçava literalmente a ideia de “cachorros loucos”.
3. O Reforço das Campanhas de Vacinação
Historicamente, os órgãos de saúde aproveitavam o mês de agosto para intensificar as campanhas de vacinação antirrábica em massa. Essa coincidência temporal — o mito popular do “cachorro louco” unido à mobilização nacional para vacinar os pets contra a raiva — ajudou a consolidar e perpetuar o título no calendário brasileiro até os dias atual.
Mito vs. Realidade: O que é verdade hoje?
- O comportamento não é exclusivo de agosto: Embora fatores climáticos possam influenciar o cio, os cães podem entrar em cio e brigar em qualquer época do ano.
- A raiva urbana está controlada: Graças ao sucesso contínuo das campanhas de vacinação em larga escala promovidas ao longo das décadas, a incidência de raiva urbana em cães e gatos tornou-se extremamente rara no Brasil, embora a prevenção anual siga sendo obrigatória e vital.
Em suma, o título de “mês do cachorro louco” nasceu da constatação empírica de antigas gerações ao observarem o pico de brigas entre cães acuados por hormônios e pelo risco real da raiva no fim do inverno, transformando um fenômeno comportamental e de saúde pública em folclore popular.
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Pr.Ângelo Medrado
