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Obama autoriza os piores impulsos de Israel

 

Discurso do presidente dos EUA no American Israel Public Affairs Committee repetiu cada ponto retórico importante para o atual governo israelense

28 de maio de 2011 | 16h 00

Rashid Khalidi – Salon.com

Reza o velho provérbio árabe que os cães ladram e a caravana passa. Os comentários de Barack Obama sobre o conflito israelense-palestino em seus discursos no Departamento de Estado e depois no American Israel Public Affairs Committee (Aipac) na semana retrasada causaram muito estardalhaço em Washington. Mas a sensação que tive estando em Beirute e no Golfo quando eles foram proferidos foi de que eles significaram muito menos para os árabes que em Washington ou Israel. Poucos no mundo árabe e entre palestinos acreditam que os Estados Unidos tenham um papel construtivo a jogar na solução desse conflito. Aliás, ao contrário, eles só conseguiram se tornar um empecilho maior do que antes ao progresso.

Baz Ratner/ Reuters

Baz Ratner/ Reuters

Trecho da controversa barreira israelense

Em ambos os discursos o presidente reafirmou uma posição tomada por todos os seus antecessores desde Lyndon Johnson: que os Estados Unidos consideram as fronteiras de 1967 a base para um acordo nos termos da Resolução 242 do Conselho de Segurança. Somente em Israel e no Congresso americano isso é considerado novidade, porque Obama não mencionou a concessão de George W. Bush a Ariel Sharon em 2004: "À luz de novas realidades no terreno, incluindo grandes centros populacionais israelenses já existentes, é irreal esperar que o resultado das negociações finais de status venham a ser um retorno pleno e completo às linhas do armistício de 1949". O discurso no Aipac reprisou essa importante concessão, ainda que numa forma ligeiramente menos completa, referindo-se somente a "novas realidades demográficas no terreno".

Deixando de lado essa provisão, o discurso repetiu cada ponto retórico importante do atual governo israelense:

– Um acordo deve envolver a aceitação palestina de "Israel como um Estado judeu e a pátria do povo judeu", o que significa que o 1,4 milhão de palestinos que viviam dentro de Israel devem permanecer cidadãos de segunda classe, ou pior, e que os palestinos precisam renunciar à ideia de que a totalidade da Palestina seja também sua pátria. A "pátria" dos palestinos seriam os fragmentos da Palestina Obrigatória pré-1948 que puderem ser salvos em negociações com Israel, presumivelmente, em torno de 20% do país.

– As "preocupações básicas de segurança" de Israel (nenhuma menção, é claro, à segurança dos palestinos, que mais precisam dela) devem ser um determinante chave de um acordo. Dada a maneira como são abrangentes e elásticos os requisitos de "segurança" israelense, isso basicamente significa que Israel pode contestar praticamente qualquer aspecto de um acordo com o qual não concorde.

– Ligada à aceitação das necessidades de segurança de Israel está a provisão de que um Estado palestino teria de ser "não militarizado". Como um acordo teria de "prover segurança eficaz de fronteiras", isso presumivelmente significa a aceitação da nova demanda do governo Netanyahu de continuar no controle do vale do Rio Jordão e, portanto, dessas fronteiras do "Estado" palestino, no futuro indefinido.

– Nenhum envolvimento do Hamas no processo, a menos que ele aceite precondições como a renúncia à violência e o reconhecimento de Israel antes das negociações, precondições que, nem seria preciso dizer, não são impostas ao outro lado. Dada a recente reconciliação interpalestina, isso descarta, na verdade, a possibilidade de negociações. No discurso do Aipac, essa condição é declarada de maneira ainda mais vigorosa que antes: a reconciliação interpalestina é descrita como "um enorme obstáculo à paz".

– Terá de haver um novo adiamento (após um adiamento de 20 anos por insistência de Israel, iniciado em Madri em 1991) no tratamento das questões centrais de refugiados e Jerusalém. Isso significa que Israel é livre para continuar a construir na Jerusalém Oriental árabe ocupada, expulsar o máximo possível de sua população palestina, mudar os nomes de lugares, apagar marcos históricos e, enfim, tornar a cidade tão judaica quanto Tunbridge Wells é inglesa.

– Não deverá haver nenhuma "deslegitimação" de Israel (uma adoção americana nova em folha de um termo da direita israelense) via colocação do problema da cidadania palestina na ONU, pois, como o presidente declarou no Aipac, um Estado palestino precisa nascer como resultado de negociações, não de uma resolução da ONU. Os escritores de discurso do presidente aparentemente não se lembraram de que o Estado de Israel nasceu com a Resolução 181 da Assembleia-Geral.

Qualquer governo israelense sensato (hoje em dia, talvez uma contradição nos termos) saltaria sobre isso como uma base para negociação, ou pelo menos como uma oportunidade de fazer os árabes parecerem rejeicionistas que se opõem aos desejos de Washington. Um indício de quanto Israel oscilou para a direita é que essa não foi a reação imediata de Netanyahu. Mas ele chefia um governo de coalizão cujo único denominador comum é um compromisso com a expansão dos assentamentos, manter territórios palestinos ocupados e a oposição a negociações sérias com os palestinos.

A campanha para as eleições presidenciais americanas de 2012 já está em curso. Obama e os democratas já estão em modo defensivo ante os ataques insidiosos de líderes republicanos sobre "ter jogado Israel embaixo do ônibus", "traição à única democracia no Oriente Médio", e assim por diante. A questão israelense-palestina já virou uma bola de futebol, e o adágio americano de que a política cessa à beira d’água (no sentido de que os partidos devem se unir em torno da política externa do país) não se aplica claramente a ela.

Dadas as mudanças revolucionárias em curso no mundo árabe e seu impacto profundo nos palestinos, como pôde ser visto na reconciliação interpalestina e na marcha dos palestinos vindo de cinco direções até as fronteiras de Israel em 15 de maio, os eventos no Oriente Médio de algum modo ultrapassaram o presidente Obama. Não somente porque as mãos deste estão atadas pelo começo da campanha presidencial. Ele também é vítima do mau conselho de veteranos como Dennis Ross, que ajudaram a conduzir governos na direção errada desde Ronald Reagan.

Em vista desses fatores, não surpreende que, no que diz respeito a um verdadeiro processo de paz, Washington esteja atrasado e mal preparado. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

RASHID ISMAIL KHALIDI É UM HISTORIADOR PALESTINO-AMERICANO, DIRETOR DO INSTITUTO DE ESTUDOS DO ORIENTE MÉDIO DA UNIVERSIDADE COLÚMBIA. AUTOR DE RESURRECTING EMPIRE (HOUGHTON MIFFLIN)

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ORIENTE MÉDIO : A primavera árabe e a liberdade dos cristãos

     O exército sírio recentemente cercou a cidade Daraa. Centenas de pessoas morreram no sangrento episódio, chamado de “primavera árabe”.
     Enquanto o mundo se solidarizou com as vítimas assassinadas pela repressão do atual presidente Assad, um grupo tem sido esquecido nesse contexto: a população cristã síria. Eles veem com outros olhos o surgimento dessa democracia árabe que está se instalando.
     Cerca de 10% por cento da população síria é cristã e o governo sírio tem feito um bom trabalho, tentando defender as minorias religiosas da perseguição.
     Mas esse processo de transição de governo traz um dilema para a comunidade cristã da Síria: todo o resto continuará igual. Mesmo que a Síria crie leis mais democráticas, as coisas estão longe de ser diferentes. Com a saída do atual presidente, o país pode se tornar um lugar perigoso para os cristãos.
     O que falta em toda essa conversa sobre “primavera árabe” e “democracia” é saber o que realmente significa democracia para os sírios e se ela conseguirá de fato tornar as coisas  necessariamente  melhores para o país.
     Regimes autoritários ou democracias fortes forçam a população a seguir as leis do país, podendo oferecer às minorias alguma proteção contra a revolta de multidões. Mas retire toda a autoridade do Estado e, consequentemente, verá que o resultado é a violência. E é disso que os cristãos sírios têm medo, pois é necessário tomar mais atitudes do que simplesmente implantar a democracia e achá-la boa.
     A democracia, que é vista no Ocidente como a forma mais justa de governo, não tem a mesma conotação em países do Oriente Médio, como Síria e Egito.

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Depois de choques entre muçulmanos e cristãos, premiê egípcio convoca reunião

 

Essam Sharaf adiou viagem para reunião de emergência; confrontos deixaram dez mortos e mais de cem feridos.

08 de maio de 2011 | 7h 30

O primeiro-ministro do Egito, Essam Sharaf, convocou uma reunião de emergência do gabinete de governo depois dos confrontos entre muçulmanos e cristãos durante a noite no Cairo, que deixaram dez mortos.

Segundo a imprensa estatal do país, Sharaf adiou uma viagem ao Barein e Emirados Árabes Unidos para discutir a violência religiosa no bairro de Imbaba que, além de dez mortos, também deixou mais de cem feridos.

"O primeiro-ministro Sharaf convocou uma reunião de emergência do gabinete de governo para discutir os eventos lamentáveis em Imbaba", afirmou Ahmed al-Saman, porta-voz do governo, à agência de notícias estatal Mena.

Os confrontos começaram depois que centenas de muçulmanos conservadores se reuniram em uma igreja alegando que uma mulher cristã que se converteu ao islamismo estava sendo mantida contra a vontade dentro da igreja.

Segundo a agência Mena, a mulher teria se casado com um muçulmano e queria se converter ao islamismo.

O que teria começado como uma discussão entre manifestantes, seguranças da igreja e moradores das proximidades evoluiu para um confronto envolvendo armas, bombas e pedras.

Duas igrejas e algumas casas do bairro foram incendiadas e foram necessárias algumas horas para que os serviços de emergência e militares controlassem a situação.

Segundo o correspondente da BBC no Cairo Jonathan Head, a ocorrência de outro episódio grave de violência em uma comunidade, enquanto o governo militar lidera um processo de transição hesitante é mais um motivo de preocupação para o Egito.

Movimento salafista

Testemunhas afirmaram que centenas de muçulmanos integrantes do movimento salafista se reuniram na Igreja Copta de Santa Mena, no bairro populoso de Imbaba, na noite de sábado.

Eles protestavam contra a alegação de que uma mulher cristã estava sendo mantida presa na igreja.

No entanto, uma pessoa que estava no local, um blogueiro chamado Mahmoud, disse à BBC que as pessoas que viram o início da violência afirmaram que os que começaram o confronto pareciam "bandidos comuns" ao invés de salafistas.

O blogueiro testemunhou o incêndio em uma segunda igreja e ajudou os bombeiros a apagar as chamas.

O grupo salafista, que adotou uma postura mais expressiva desde que Hosni Mubarak deixou a Presidência em fevereiro, já fez outras denúncias de mulheres sendo mantidas contra a vontade dentro de igrejas.

Em março 13 pessoas morreram em confrontos semelhantes em outro bairro. Em abril, manifestantes na cidade de Qena, sul do Egito, cortaram os transportes para o Cairo durante uma semana em protesto contra a indicação de um governador cristão para a região.

Cerca de 10% da população do Egito é formada por coptas. A maioria é de muçulmanos.

De acordo com o correspondente da BBC, esta minoria cristã agora teme pela própria segurança caso os muçulmanos conservadores consigam bons resultados nas eleições, marcadas para setembro. BBC Brasil – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.



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