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O chamado Radical

A frase “Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos” (ou “deixa que os mortos enterrem os seus mortos”) aparece nos Evangelhos de Mateus (8:21-22) e Lucas (9:59-60). Trata-se de uma das declarações mais impactantes e paradoxais de Jesus Cristo, usada no contexto do custo do discipulado.

1. O Contexto do Texto

Jesus estava chamando um homem para segui-Lo, ao que o homem respondeu:

“Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai.”

À primeira vista, a recusa de Jesus parece insensível ou contrária ao quinto mandamento (“Honra teu pai e tua mãe”). No entanto, o contexto cultural do Primeiro Século revela o real significado:

  • Sepultamento duplo: Na cultura judaica da época, o processo de sepultamento costumava durar até um ano (primeiro o corpo era colocado num sepulcro; depois que os tecidos se decompunham, os ossos eram recolhidos em um ossuário). O pai do jovem podia nem ter falecido ainda — a expressão podia significar “deixe-me cuidar do meu pai até ele morrer e tudo se resolver”.
  • Adiar a decisão: O homem usou um dever familiar legítimo para postergar o compromisso de seguir a Jesus imediatamente.

2. O Significado Teológico e Prático

A. A Dupla Dimensão da Morte

Jesus utiliza um jogo de palavras entre a morte espiritual e a morte física:\text{Morte Espiritual (ausência de vida com Deus)} \quad \neq \quad \text{Morte Física (fim do corpo)}

  • “Os mortos…” \rightarrow Aqueles que estão espiritualmente mortos (alienados da vida com Deus e focados apenas nas coisas terrenas).
  • “…enterrem seus mortos” \rightarrow Aqueles que morreram fisicamente.

Jesus está dizendo: deixe que as pessoas que vivem apenas para este mundo cuidem das obrigações deste mundo. Você, porém, foi chamado para algo mais elevado: a Vida Eterna.

B. A Urgência do Reino de Deus

Nada — nem mesmo a tradição, a segurança financeira ou obrigações sociais importantes — deve ser colocado acima do chamado de Deus. Jesus não ensina a desonrar os pais, mas enfatiza que o Reino de Deus exige prioridade absoluta.

C. O Perigo da Procrastinação Espiritual

O jovem tentou colocar o Reino de Deus como uma prioridade secundária (“permite-me ir primeiro…”). A resposta de Jesus adverte contra a tendência humana de inventar desculpas legítimas para adiar a entrega de vida.

3. Aplicações para os Dias de Hoje

  • O perigo das desculpas “boas”: Muitas vezes não dizemos “não” a Deus com coisas ruins, mas com coisas boas e legítimas (trabalho, família, planos de carreira) colocadas no lugar errado de prioridade.
  • Foco no que é eterno: As ocupações terrenas são temporárias. O chamado do Evangelho é para anunciar a vida em um mundo focado na decadência.
  • Decisão imediata: O chamado de Cristo não é para um “futuro conveniente”, mas para o presente.

“E Jesus lhe disse: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus.” — Lucas 9:62

Pr. Ângelo Medrado

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Cultos

A Saga da Família Medrado:

Do Coronelismo da Chapada Diamantina

ao Legado de Fé e Educação no Brasil

1. As Origens Coloniais e o Poder na Bahia (Séculos XVIII e XIX)

A trajetória da família Medrado no Brasil confunde-se com a própria interiorização da Bahia a partir da primeira metade do século XVIII. O sobrenome, de raízes ibéricas galego-portuguesas, ganha força na história colonial com o Capitão-Mor José da Rocha Medrado (c. 1730–1771). Inicialmente estabelecidos na região de Bom Jesus do Rio de Contas, os membros do clã migraram para a antiga Vila de Santa Isabel do Paraguaçu (atual Mucugê) com a descoberta das riquíssimas jazidas de diamantes no século XIX.

Na Chapada Diamantina, os Rocha Medrado consolidaram-se como grandes latifundiários, proprietários de fazendas históricas como a Fazenda Sumidouro, e exerceram forte domínio político e militar sob a patente de coronéis da Guarda Nacional. Figuras como o senador estadual Augusto Landulfo da Rocha Medrado e o deputado constituinte Sebastião Landulfo da Rocha Medrado ditaram os rumos políticos locais. O poder do clã era tão marcante que o Coronel Doca Medrado mantinha homens que integraram os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai (1870) e o Batalhão Patriótico das Lavras Diamantinas (em defesa do governo de Arthur Bernardes contra a Coluna Prestes em 1925). A influência intelectual também gerou marcos na literatura, como a célebre “Carta Aberta a Jorge Amado” escrita por Landulfo da Rocha Medrado Filho na década de 1920 contra a sátira do escritor em ABC de Castro Alves.

2. A Virada Espiritual e Intelectual: Ângelo Barbosa Medrado (Final do Século XIX a 1920)

Nesse mesmo cenário do sertão baiano, floresceu Ângelo Barbosa Medrado (nascido em 1868), casado com Maria Murtinho. Homem culto, de escrita

eloquente e ortograficamente rica, buscou profunda liberdade de pensamento por meio da educação e da fé. Afastando-se do catolicismo tradicional romano — expressando em seus escritos sua decepção com o romanismo —, converteu-se ao protestantismo batista como fruto das primeiras missões no estado.

Tornou-se um dos primeiros representantes da Junta de Richmond no Brasil, sendo citado nominalmente na autobiografia do pioneiro missionário norte-americano Zacarias Clay Taylor (cofundador da Primeira Igreja Batista de Salvador em 1882 e do Seminário Batista do Sul).

 Alinhado com a visão de líderes como o missionário judeu-russo Salomão Ginsburg — que defendia que o Brasil deveria ser evangelizado e liderado por brasileiros capacitados —, Ângelo tomou uma decisão crucial na década de 1920, quando já atuava como Vice Moderador da Primeira Igreja Batista em Itabuna: encaminhar seus filhos varões ao Ministério Batista.

3. A Segunda Geração: A Vocação dos Irmãos Natanael e Enoque

Cumprindo o propósito de seu pai, os dois filhos de Ângelo formaram a nova geração de pregadores e educadores do protestantismo brasileiro:

  • Pr. Natanael Barbosa Medrado (n. 1909): O filho mais velho, que seguiu para o Recife para estudar no tradicional Seminário Batista do Norte do Brasil.
  • Pr. Enoque Barbosa Medrado (nascido em Jequié): O filho caçula, que se formou no Seminário Batista do Sul do Brasil (no Rio de Janeiro) e desbravou frentes missionárias inóspitas pelo país.

4. O Roteiro do Desbravamento Missionário (Pr. Enoque Barbosa Medrado)

  • Rondônia e Acre (A Amazônia Ocidental): O Pastor Enoque e sua esposa Elza Medrado fixaram residência em Porto Velho, no então Território Federal de Rondônia. Ali, atuou na consolidação da Primeira Igreja Batista local e estendeu frentes de apoio social até o Acre. Foi durante sua missão em Porto Velho, em 1944, que nasceu seu filho, Gézio Duarte Medrado.
  • Paraná (O Pioneirismo no Sul): Na década de 1940, migrou para o Norte do Paraná, liderando a junta fundadora e sendo o primeiro presidente da Primeira Igreja Batista de Rolândia (na Fazenda Bimini). Teve seu nome eternizado nos anais da Câmara dos Deputados como um dos pioneiros na fundação da Primeira Igreja Batista de Londrina, além de iniciar congregações em Cambé, Mandaguari, Maringá, Goioerê e Cianorte, Terra Rica entre outros.
  • O Interior Paulista: No início dos anos 1950, estabeleceu-se na região da Alta Noroeste (Promissão e Penápolis), atuando como líder itinerante ao longo da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.

   Enoque B. Medrado e Elza sua esposa

5. O Legado Eterno na Capital de São Paulo

Em meados dos anos 1950, o Pastor Enoque e Dona Elza fixaram residência definitiva na capital paulista, no tradicional bairro do Limão, dedicando décadas a trabalhos sociais e religiosos. O reconhecimento por sua vida de serviço comunitário eternizou seu nome na capital por meio de decreto oficial da Prefeitura, que nomeou a Praça Pastor Enoque Barbosa Medrado na Vila Albertina/Limão.

6. A Continuidade do Legado: O Prof. Dr. Gézio Medrado e a Família

A união do Pastor Enoque com Dona Elza gerou cinco filhos (Gézio, Judite, Leda, Solon e Ângelo).

  • Prof. Dr. Gézio Duarte Medrado: Personalizando o ápice do ideal de Salomão Ginsburg e de seu avô Ângelo sobre a importância da formação intelectual, tornou-se um brilhante jurista e acadêmico. Mestre e Doutor em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, manteve os laços históricos com as causas batistas ao assumir a Diretoria Geral do Colégio Batista Brasileiro e a presidência da Rede Batista de Educação. Recebeu da Câmara Municipal a honraria de Cidadão Paulistano em 2016.

7. O Ministério e o Empreendedorismo: O Pastor Ângelo Duarte Medrado

Dando continuidade ao legado de liderança pastoral, Ângelo Duarte Medrado — filho do Pastor Enoque — uniu a vocação teológica à atuação empresarial. Chamado ao ministério pastoral em Brasília (DF), formou-se em teologia pela Faculdade Teológica de Brasília (FATEB) e concluiu seu Doutorado em Novo Testamento pela Multiuniversidade Cristocêntrica. À frente da Igreja Batista da Restauração de Vidas, destacou-se também como prolífico autor de obras teológicas e de gestão, publicando livros marcantes como Maçonaria e Cristianismo, O Cristão e a Maçonaria, A Religião do Anticristo, Comportamento Gerencial e Vendas de Alto Nível com Análise Transacional.

Seja pela espada dos antigos capitães-mores de Mucugê, pela pena culta de Ângelo Barbosa Medrado nas Lavras Diamantinas, pela palavra de fé do Pastor Enoque e de seu filho Ângelo, ou pelas salas de aula e tribunais do Prof. Dr. Gézio, a história desta linhagem da família Medrado permanece como um testemunho vivo de fé, coragem e rigor intelectual na construção do Brasil

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“Além do Rito: O Propósito do Batismo”

O batismo

A aplicação pastoral da passagem de Marcos 16:16 (“Quem crer e for batizado será salvo”) é de extrema relevância para a vida da comunidade de fé, o pastoreio de novos convertidos e a vivência comunitária. Sob a ótica pastoral e pedagógica, essa declaração de Cristo transcende o debate doutrinário abstrato e se converte em um guia prático para a liderança e para o cuidado das pessoas.

Abaixo, detalho os principais eixos de aplicação pastoral desta passagem:

1. A Intencionalidade no Acolhimento e no Discipulado

  • Da Decisão ao Cuidado: Pastoralmente, o crer não é um ponto final, mas um ponto de partida. O líder ou pastor tem a responsabilidade de acolher aquele que manifesta a fé, entendendo que a decisão inicial por Cristo precisa ser nutrida por meio de um discipulado intencional.
  • Preparação para o Batismo: O batismo não deve ser tratado como um ritual burocrático ou meramente mecânico, mas como um momento solene de ensino. É a oportunidade de ouro para o pastor explicar a profundidade da aliança, ajudando o crente a compreender que está deixando velhas práticas para abraçar uma nova identidade.

2. A Importância do Testemunho Público e da Identidade Comunitária

  • Rompendo com o Isolamento: Na sociedade contemporânea, é comum que a religiosidade se torne algo estritamente privado, individualista e invisível. Pastoralmente, o batismo atua como um antídoto contra esse isolamento: ele exige um testemunho público perante a comunidade.
  • Senso de Pertencimento: Ao ser batizado, o crente é inserido de forma visível na família da fé. Para o pastor, isso significa integrar o novo membro ativamente no corpo eclesial, mostrando-lhe que a salvação tem uma dimensão comunitária — ninguém se salva sozinho, mas caminha junto com os irmãos.

3. O Cuidado com o Legalismo e com o Formalismo Religioso

  • A Ordem dos Fatores: O texto coloca o crer antes do batismo. Pastoralmente, isso lembra a liderança que o rito exterior (o batismo) não substitui a conversão do coração (a fé). O pastor deve zelar para que os membros não caiam na armadilha do formalismo, achando que a cerimônia por si só garante a graça, desvinculada de uma vida de entrega genuína a Cristo.
  • A Graça como Motor: A ênfase pastoral deve estar sempre na obra redentora de Jesus e na resposta de fé do indivíduo. Os sacramentos e ordenanças apontam para a graça, e não para o mérito humano.

4. A Responsabilidade Missionária da Igreja

  • O Chamado para a Ação: Esta passagem está inserida no contexto da Grande Comissão (Marcos 16:15). Pastoralmente, ela desafia a igreja a olhar para fora de suas quatro paredes.
  • Equipar os Fiéis: Se o evangelho precisa ser anunciado para que as pessoascreiam, o papel do pastor é capacitar a comunidade para que cada crente seja um agente de esperança em seu cotidiano (no trabalho, na família e na vizinhança), tornando acessível a mensagem que conduz à salvação.

Pr.Ângelo Medrado