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Pastor é criticado e denunciado ao MP após fotos de batismo de índios

Uma fotografia compartilhada pelo pastor evangélico Isac Santos, no Facebook, reacendeu uma discussão que perdura por séculos. Na publicação, feita em 22 de agosto, o religioso aparece acompanhado de diversos xavantes no município de Água Boa, em Mato Grosso, e comemora o fato de ter batizado 38 integrantes da aldeia, entre eles o cacique do grupo.

Na imagem publicada na rede social há homens, mulheres e uma criança, todos integrantes da terra indígena de Areões. Eles usam roupas brancas. Ao fundo, o pastor abre os braços e sorri.

A publicação viralizou – eram mais de 16 mil reações e 10 mil compartilhamentos até a manhã desta segunda-feira – e teve repercussão, em grande parte, negativa. A maioria dos usuários utilizou o emoji que expressa raiva para classificar a fotografia. A segunda reação mais popular foi a de tristeza.

Nos comentários, há diversas críticas ao batismo dos indígenas. “Eu peço que Deus ilumine sua cabeça e mostre como é irracional e até pecado o desrespeito à cultura indígena. Jesus não é isso”, escreveu uma mulher, em meio a muitas outras pessoas que também reprovaram a atitude do pastor. Poucos comentários apoiaram a ação do religioso.

Além dos missionários, o batismo dos indígenas também teve a presença da vereadora Aninha Carvalho (SD), do município de Trindade, em Goiás. Em suas redes sociais, a parlamentar publicou imagens dos xavantes e um vídeo no qual aparece ao lado do pastor cantando músicas religiosas para crianças indígenas. Ela também recebeu diversas críticas nos comentários.

O debate sobre a inserção de religiões à cultura dos indígenas é antigo. O assunto existe desde o Brasil Colônia, quando os jesuítas vieram ao país, em 1549, para evangelizar, catequizar e tornar cristãos os indígenas que habitavam as terras brasileiras.

Quase cinco séculos depois, o impacto cultural da religião do homem branco nos indígenas ainda gera debates e causa polêmica. Apesar disso, grupos de diversas religiões continuam frequentando tribos indígenas e conquistando novos fiéis dentro das aldeias.

Para o antropólogo Roque Lara, que há décadas estuda a cultura indígena, as incursões religiosas trazem prejuízo histórico para os indígenas.

“A Constituição brasileira garante aos indígenas o direito de continuar com suas crenças e religiões. Como antropólogo, há muito tempo tenho me manifestado contra missões. É um absurdo que uma pessoa que venha de fora, que não fala a língua do grupo, queira mudar a cabeça deles e as crenças de centenas de anos.”

O batismo de Água Boa

O pastor Isac Santos, da Igreja Tempo de Semear, contou que há mais de um ano conhece o cacique da aldeia onde ocorreu o batismo. Segundo o religioso, os xavantes da região sempre ficam em sua casa quando vão à cidade. Ele argumentou que antes de se converterem à sua religião, os indígenas já haviam adquirido costumes brancos.

“Eles eram convertidos ao cristianismo. Ao contrário do que os ignorantes pensam, na aldeia deles possui energia e televisão. Além disso, os indígenas daquela região têm conta no banco, título de eleitor, Bolsa Família, falam português e fazem faculdade. Eles não ficam dançando ao redor do fogo o dia todo”, disse.

Santos comentou que o batizado foi presenciado por todos os membros da aldeia, incluindo os que não participaram do ato.

A cerimônia ocorreu no Rio Borecaia, em Água Boa. Os indígenas foram ao local com os missionários. Utilizando roupas brancas, eles entraram na água junto com os religiosos. Entoavam canto de sua cultura, em linguagem própria, enquanto os pastores bradavam “aleluia, Jesus” e “glória a Deus”.

Durante o batismo, havia duas duplas de pastores e cada uma delas convidava um indígena por vez. Ao ser chamado, cada um era posicionado pelos religiosos. De costas, eles juntavam as palmas das mãos em sinal de oração e eram colocados durante segundos nas águas do rio. Posteriormente, eram levantados e recebiam aplausos de quem acompanhava a cerimônia.

De acordo com Santos, o batizado é essencial para os indígenas que queiram seguir a religião evangélica. “Se de fato são cristãos, essa decisão precisa ser selada no batismo. Segundo João Batista, isso é feito por imersão nas águas. É preciso crer para ser batizado. Só dei continuidade ao batismo quando pude testificar, de fato, que eles tinham Jesus como salvador. Caso contrário, o procedimento deles seria inválido.”

Ele frisou que os indígenas de Areões foram os únicos batizados pela equipe missionária da qual faz parte. O religioso também salientou que as roupas utilizadas durante a cerimônia não foram exigências e pertenciam a eles, que teriam comprado as vestes para utilizá-las em dias festivos.

Em relação às diversas críticas que recebeu, o religioso as classificou como infundadas. Para ele, os comentários contrários ao batismo foram feitos por “ativistas de teclado”.

“Fazer dos indígenas uma bandeira de ativismo é muito bizarro. Os tratam como bichos, como se fossem incapazes. Os indígenas dizem que podem tomar suas próprias decisões. Eles escolheram a nossa fé. Parece que é crime o fato de eles terem escolhido o cristianismo.”

Santos comentou que reagiu com naturalidade aos comentários negativos feitos em sua publicação.

“No meu Facebook, comenta quem quer. Na minha caixa de mensagem há todo tipo de ameaça. Mas não é disso que se trata a democracia? Eles xingam quem eles querem, eu batizo quem quiser ser batizado”, afirmou.

Sobre a presença da vereadora Aninha Carvalho na cerimônia, o líder religioso explicou que a parlamentar estava a passeio. “Ela foi para pescar com a gente no rio das Mortes. Como descemos para a aldeia, ela nos acompanhou e ainda comprou pães para o lanche e docinhos para as crianças indígenas. Acabou sendo uma bênção.”

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da vereadora e com a própria parlamentar, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Contato entre tribos e religiosos

O controle de acesso de grupos religiosos a tribos indígenas é feito pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

Por meio de comunicado, a instituição explicou que a entrada de missões em terras indígenas só pode ocorrer com autorização da presidência do órgão ou em caso de as lideranças das aldeias autorizarem a entrada dos grupos.

A Funai informou ainda que não recebeu nenhum tipo de denúncia sobre o caso em Água Boa.

Já no Ministério Público Federal (MPF) existe uma representação contra o batismo que ocorreu na terra indígena de Areões. Em 28 de agosto, a pedagoga Juliani Caldeira protocolou denúncia sobre o caso após ver a publicação feita pelo pastor Isac Santos. O procedimento ainda não entrou em fase de tramitação.

Na denúncia, Caldeira questionou a presença da vereadora Aninha Araújo e dos missionários na aldeia. Ela pediu a abertura de investigação sobre o caso.

“Sendo o Estado Laico e sendo a vereadora representante do povo no seu mandato, teria ela o consentimento para entrar em aldeias, levando a sua cultura para um grupo que já possui a sua própria?”, questionou a pedagoga, em trecho do documento protocolado no Procuradoria.

Cultura

Os xavantes compõem o maior grupo indígena de Mato Grosso. Há cerca de 20 mil deles em diversas regiões mato-grossenses. Eles possuem dez terras no Estado.

Entre as características culturais deles estão rituais que envolvem os processos da vida como nascimento e casamento. Os indígenas desse grupo são ligados a questões de espiritualidade e cultivam segredos sobrenaturais. A língua deles é denominada acuen, do tronco linguístico macro-jê.

Entre os rituais deles, destaca-se o wai’a, no qual apenas os homens participam e repassam conhecimentos tidos como sobrenaturais, relacionados a questões como a vida e a morte, o bem e o mal, a doença e a cura.

Uma das particularidades dos xavantes é a permissão para que os homens possam exercer a poligamia.

Nas últimas décadas, assim como relatado em outras aldeias do país, parte da cultura deles foi suplantada pela religião evangélica ou católica, trazida aos grupos por meio de missionários.

Diversas terras de xavantes deixaram de permitir a poligamia e outros ritos, mantiveram alguns costumes de seus ancestrais e passaram a ser predominantemente católicas ou evangélicas.

O xavante Lúcio Waane Terowaa, de 39 anos, que vive na terra indígena de São Marcos, teme pela perda cultural de seu povo. Filho de pais que decidiram seguir o catolicismo, ele nunca quis ser batizado e optou por preservar a cultura de seus antepassados.

“Nós acreditamos na espiritualidade indígena. Os xavantes creem que existe o mundo espiritual, que nos protege, nos leva a ser pessoas mais tranquilas e faz com que tenhamos convivência harmônica. Só que essas pessoas que estão mais avançadas em outras religiões estão falando mal da nossa. Dizem que a deles está certa. Isso é muito triste”, disse.

“As nossas crenças foram atacadas pela Igreja Católica e pela evangélica. Começaram a falar que não é certo dar continuidade à nossa religião. Isso vem trazendo um grande impacto sociocultural”, completou.

Segundo ele, apesar de diversos grupos terem adotado religiões diferentes, há outros que nunca aceitaram a presença de nenhum tipo de igreja.

“Ao longo dos anos, algumas aldeias foram convencidas, mas nem todas. Algumas delas não aceitam nenhum missionário e mantêm a tradição antiga”, relatou.

Terowaa contou que quase chegou a ser batizado, mas desistiu. “Comecei a pesquisar sobre religião, procurei na internet e percebi que havia algo errado que está dominando meu povo.”

“Na minha opinião, acho que todas as religiões merecem respeito. É triste ver que a igreja invadiu nosso território para evangelizar os indígenas e agora fala mal da nossa cultura. Para mim, não há fundamento para justificar a existência dessas religiões nas aldeias.”

Incursões religiosas

As ações religiosas em terras indígenas de Mato Grosso possuem diversas passagens marcantes. Entre elas está a missão jesuítica de Utiariti, feita por membros da Igreja Católica no município de Diamantino entre os anos de 1930 a 1970. O trabalho envolveu os Nambikwara, Irantxe, Paresi, Rikbáktsa, Apiaká e os Kayabi.

A Utiariti tinha o objetivo de catequizar crianças indígenas por acreditar que elas seriam o meio mais fácil de doutrinação em um período em que havia disputa de terras entre indígenas e seringueiros. Na época, ocorria a reativação de seringais de Mato Grosso, após a Segunda Guerra Mundial.

A missão foi alvo de duras críticas de indígenas, pois no internato onde as crianças ficavam havia distanciamento da cultura nativa delas. No local, os responsáveis somente conversavam em português, passavam apenas ensinamentos católicos e eram raras as permissões para que os pequenos indígenas pudessem visitar suas famílias.

O indigenista Ivar Busatto, coordenador da Operação Amazônia Nativa (Opan), comentou que a postura de alguns religiosos assusta pessoas que trabalham com a cultura indígena.

“A gente tem visto na Amazônia, no Sul do País e em outros lugares, que há uma ‘busca’ por essas almas dos nativos, que é um pouco estranha e agressiva. Isso tem nos preocupado. Esse ufanismo por conquista de almas é estranho e causa perplexidade.”

Ele relatou que cada indígena tem permissão para seguir a religião que preferir, conforme determina a Constituição Federal de 1988. Porém, frisou que é importante manter o apreço à cultura de cada povo.

“Todo cidadão, de qualquer etnia, de qualquer lugar do mundo, tem o direito de fazer suas escolhas de linha religiosa. Mas é importante ter respeito às crenças de cada um”, observou.

O antropólogo Roque Lara pontuou que o modo como os missionários agem pode ofender a cultura das aldeias.

“A Constituição diz que a crença dos indígenas deve ser respeitada. O indígena, individualmente, pode mudar de crença, caso queira. Mas o problema é a maneira como as coisas são feitas. Depende do modo como missionário está agindo. Ele pode começar a oferecer bens materiais e o indivíduo acha que é vantagem.”

“Mas, por princípio, os antropólogos defendem as crenças indígenas, da mesma forma que defende que cada um tenha a sua crença e também o direito de não ter nenhuma”, completou.

Lara defendeu que os grupos religiosos que comparecem às aldeias realizem trabalhos sociais, sem coagir os indígenas a seguir determinada crença.

“Há muitos casos de religiosos que desistiram da catequese e passaram a fazer serviço de assistência. Conheci missionário muito bem intencionado, que trabalhava bem e cuidou da população indígena. Mas acho que é importante saber o momento em que ele pode entrar e respeitar”, destacou.

Uma das entidades religiosas que atua em aldeias indígenas do Brasil é o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), fundado em 1972. A instituição é ligada à igreja católica por meio da Conferencia Nacional Dos Bispos do Brasil (CNBB) e afirma não impor nenhuma crença ao grupo.

O secretário-executivo do Cimi, Cleber Buzzato, esclareceu que o conselho tem o objetivo de auxiliar causas relacionadas aos indígenas.

“Embora sejamos uma entidade de caráter religioso, nossa atuação junto aos povos não tem perfil proselitista. Defendemos termos constitucionais, segundo os quais os povos têm direito aos seus usos, costumes, tradições e terras que ocupam. A gente apoia esses povos nas demandas que eles apresentam ao Estado brasileiro, para que possam ter condições mais adequadas de vida”, disse.

Ele comentou que ações religiosas do Cimi são realizadas apenas nas aldeias em caso de os próprios indígenas solicitarem.

“Há casos específicos em que os povos passaram por processo de cristianização e que demandam alguns serviços eclesiais. Se há solicitação dos povos e alguns de nossos voluntários têm a possibilidade de responder a esses pedidos, então essas demandas são atendidas.”

Apesar de acreditar que existam entidades religiosas que possam trazer benefícios aos indígenas e não imponham suas crenças ao grupo, o xavante Lúcio Waane Terowaa fez um apelo.

“Para que a gente possa viver neste mundo, cada um deve respeitar o outro. Cada raiz é diferente. Cada cor é diferente. Mas somos todos iguais, somos feitos à imagem única dos seres sábios. Eu preciso que as pessoas ao menos respeitem a gente.”

Fonte: BBC Brasil

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Nossa luta não é contra carne e sangue

 “Batalha espiritual”

Soldado com espada e escudo

Soldado com espada e escudo. (Foto: Divulgação)

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I. A inclusão do tema no final da epístola

Paulo está chegando ao final de sua epístola aos Efésios, mas antes da despedida ele chama a atenção de seus leitores para a batalha espiritual contra o reino das trevas que todo crente passa nesta vida, especialmente em face da multiplicação do mal no mundo.

1. “No demais” (v. 10a)

Ao introduzir o assunto da batalha espiritual e da armadura de Deus para o crente, Paulo usa uma expressão que numa primeira leitura parece significar “finalmente, meus irmãos…”, mas, como pontua Willard Taylor [1], a expressão “No demais” (gr. tou loipou) contém a ideia de “daqui em diante” mais que “em conclusão”. Ou seja, Paulo não está meramente chamando nossa atenção para uma parte conclusiva de sua epístola, mas exortando-nos quanto às batalhas espirituais travadas “daqui em diante” (isto é, continuamente), e como devemos equipar-nos adequadamente para sermos vitoriosos.

Como bem salientou Martyn Lloyd-Jones, nos cinco primeiros capítulos da carta aos Efésios Paulo falou sobre o viver cristão, mas agora, a partir deste ponto (6.10), o apóstolo passa a falar da “poderosa oposição ao viver cristão, oposição que inevitavelmente todos enfrentamos neste mundo passageiro” [2]. A vida cristã não é um mar de flores ou um céu sempre azulado. Há lutas e pelejas intensas no reino espiritual, e o Espírito Santo não quer que sejamos ignorantes quanto a isso, pois a ignorância é uma boa oportunidade para o diabo nos enredar em suas armadilhas.

2. “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” (v. 10b)

Neste ponto, duas coisas são dignas de nota: o apelo redundante à ideia de força/poder nesta primeira parte do versículo e também a preferência do apóstolo Paulo pelo uso da voz passiva no texto grego. Aos que estão menos acostumados com estes assuntos de ordem gramatical, explicamos em termos gerais que voz passiva representa o sujeito como sendo o que recebe a ação. Por exemplo, na frase “Jesus foi batizado nas águas”, a ação não é praticada por Jesus, pois não foi Jesus quem batizou a si mesmo; ele apenas recebe a ação praticada por outro (implicitamente João Batista, que batizou a Jesus).

Sobre a redundância de Paulo (“fortalecei-vos… força… poder”), ela tem um propósito didático: enfatizar que a nossa suprema necessidade é o poder de Deus, visto que somente este poder celestial pode nos fazer vencedores diante dos exércitos inimigos. Conhecimento teológico é importante, conhecimento das letras sagradas tem valor indiscutível, reformas éticas e morais precisam acompanhar a salvação, porém tudo isso torna-se inútil diante das batalhas espirituais a menos que estejamos fortalecidos pelo poder de Deus! Não se vence o diabo com informação na cabeça, mas com poder no coração!

Quanto ao uso da voz passiva no texto grego, Paulo estava dizendo mais apropriadamente assim: “Sede fortalecidos no Senhor…” ou “Deixem-se fortalecer no Senhor…” ou ainda “Encontrem a sua força no Senhor”. Ou seja, a força não procede de nós, mas de Deus (é Ele quem fortalece), e tudo o que precisamos fazer e dar livre curso a esta força divina para que ela nos revista por completo e coloque sobre nós uma blindagem espiritual contra os ataques do astuto adversário.

Não é a vontade de Deus que nos acomodemos às fraquezas da carne ou que vivamos a vida inteira justificando nossos pecados, em gestos de autocondescendência. O Senhor tem liberado poder sobre o seu povo na medida em que tem derramado como chuva torrencial seu Espírito em toda a terra (Jl 2.28,29). Deus não dá seu Espírito por medida, isto é, com limites, mas sem limites! (Jo 3.34). Este Espírito de poder quer, pode e nos fará vitoriosos se dele nos deixarmos encher (Ef 5.18).

3. O emprego da figura de linguagem

Nalgumas bancas de correção de redação dos nossos dias, Paulo poderia ter sido penalizado pelo uso (e abuso!) do termo “contra” (gr. pros) no versículo 12. Cinco vezes este termo é repetido em apenas um versículo:

Porque não temos que lutar (1) contra a carne e o sangue, mas, sim, (2) contra os principados, (3) contra as potestades, (4) contra os príncipes das trevas deste século, (5) contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.

Paulo poderia ter optado pela elipse (isto é, omissão dos termos repetidos) ao menos nas ocorrências (3), (4) e (5), deixando o texto visualmente “mais limpo”. Como diz Lloyd-Jones, “os pedantes e sabidos editores eliminariam estas repetições de ‘contra’”. Todavia, não é sem razão que ele opta por outra figura de linguagem, a anáfora (isto é, repetição da mesma palavra), como recurso de linguagem propício para enfatizar os reais inimigos do povo de Deus. Imagine Paulo numa sala de aula, falando-nos desses inimigos espirituais, e a cada vez que ele enfatizava “contra os principados… contra as potestades… contra…”, ele bate com o punho cerrado contra a mesa ou birô, buscando enfatizar para os seus alunos quem são de fato nossos inimigos. Portanto, o alvo a ser alvejado está claramente definido, não podemos perde-lo de vista!

II. A dependência de Deus

1. Somente pelo poder de Deus

O piedoso escritor A.W. Tozer, destacando a suprema importância deste poder divino de que todos nós somos dependentes, disse com bom humor:

Para qualquer cristão, usar as Escrituras sem o Espírito é como entrar numa batalha com uma espada de papel. Não é só a palavra que fará o diabo dar meia-volta; não, é a Palavra e o poder. O diabo pode citar as Escrituras melhor que qualquer professor de seminário, mas, quando a Palavra está sob a direção do Espírito Santo, ela sempre atingirá seu alvo. [3]

Como já vimos no estudo da Lição anterior a vitória de Jesus contra o diabo no deserto não se deu apenas porque Jesus manejou bem a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6.17), mas porque também Jesus estava “cheio do Espírito” (Lc 4.1), Espírito de poder! (Ef 3.16) Se este poder fosse dispensável, uma questão facultativa, então não haveria nenhuma necessidade de Jesus haver repartido dele com seus discípulos ao dizer: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum” (Lc 10.19). Ele nos dá poder porque é indispensável para nós, especialmente quando diante do confronto com o diabo.

No ensino paulino não há espaço para macetes e truques humanos contra satanás, nem também para um ensino antropocêntrico que poderia dizer: “esta força vem de dentro de você”, como que se partisse de nós mesmos, mas “a nossa capacidade vem de Deus” (2Co 3.5). No Senhor e no seu poder é que o crente deve se abrigar, pois somente “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo à sombra do Onipotente descansará” (Sl 91.1).

Não se impõe derrota a satanás com retórica, poderosos argumentos filosóficos, nem também com políticas públicas e assistencialismo! Todas essas coisas são ferramentas fúteis para as batalhas espirituais. O homem de si mesmo é um vale de ossos secos e nada pode com suas habilidades fazer contra o poderoso inimigo (Ez 37; Jo 15.5). Todavia, esse vale de ossos secos transformado num poderoso exército pelo sopro do Espírito de Deus, pode impor fuga ao adversário e ter garantia de vitória. Maior é o que está conosco! (2Cr 32.7).

2. O revestimento da completa armadura de Deus (v. 11a)

A armadura de Deus é assunto de que iremos falar na próxima Lição, porém, de antemão atentemos para o fato de que ela nos cobre dos pés (“preparação do evangelho da paz”, v. 15) à cabeça (“capacete da salvação”, v. 17). Em Deus, nosso ser por inteiro goza de sua proteção! Não obstante, atentemos para a ênfase de Paulo: revesti-vos de toda a armadura de Deus (v. 11). Duas coisas merecem destaque nesse texto.

Primeiro, a armadura é de Deus, não dos homens, não dos doutores em teologia, não dos seminaristas, não dos professores da Escola Dominical ou dos pastores… Ela é de Deus! Somente a proteção divinal pode assegurar-nos contra a beligerância infernal! Não basta ficar sem assistir televisão, sem acessar internet, abandonar o convívio social e ir morar nas montanhas, cavernas ou ilhas desertas. O diabo que vive de “perambular pela terra e andar por ela” (Jó 1.7) certamente nos achará aonde quer que formos e nos atacará com seus dardos flamejantes. O moralismo e a ética são ferramentas ineficazes no combate contra as tentações do diabo, e não podem oferecer guarida segura aos que querem evitar o mal. Porém, revestidos da armadura de Deus viveremos em santidade (que é mais do que moral e ética), e por ela estaremos firmes contra as astutas ciladas do diabo!

Segundo, percebamos que não há acordo quando o assunto é batalha espiritual: precisamos nos revestir de toda a armadura [gr. panoplian] de Deus, não apenas de parte dela. William MacDonald comenta:

[o crente] Precisa ser completamente revestido com a armadura; uma ou duas peças não bastam. Nada menos que todo o equipamento que Deus fornece servirá para nos manter invulneráveis. O diabo tem muitas estratégias – desânimo, frustração, confusão, falhas morais e erros doutrinários. Ele conhece o nosso ponto fraco e o ataca. Se não conseguir nos vencer de uma maneira, tentará de outra. [4]

Negligenciar qualquer “peça” da armadura de Deus (Ef 6.14-17) é colocar-se vulnerável diante do inimigo, que não poupará ataques para nos abater. Se negligenciarmos o escudo da fé, cairemos na armadilha da incredulidade; se negligenciarmos os sapatos da preparação do evangelho, cairemos na ociosidade e na preguiça; se negligenciarmos a espada do Espírito, que é a Palavra, cairemos na teia nas seitas, heresias, inovações perniciosas, doutrinas de homens e de demônios, etc. Para vitória em todas as batalhas, vistamos toda a armadura de Deus!

3. Os métodos do diabo (v. 11b)

O diabo não é um bobo, como muitas caricaturas de cinema o representam. Não exaltamos, mas também não menosprezamos o seu conhecimento e poder. Embora pervertida pelo mal, o diabo tem sua inteligência e por ela traça seus métodos, planos e estratégias contra a igreja do Senhor, além de exercer seu comando sobre os principados e potestades do mal.

Ao falar das astutas ciladas (gr. methodias) do diabo, Paulo está nas entrelinhas dizendo que o maligno tentador tem seus métodos, suas maquinações ou estratagemas. Ao mesmo tempo em que o diabo nos ataca frontalmente com seus dardos inflamados (Ef 6.16), ele busca também ocasião para nos prender com suas ciladas, isto é, armadilhas. Como o passarinheiro que arma laços para pegar o passarinho, assim satanás tem armado frequentemente laços contra nós, e, como em todo laço, ele coloca coisas que possam atrair nossa atenção e seduzir-nos para dentro do laço armado. Por isso, a Bíblia exorta: “deixando, pois, todo embaraço…” (Hb 12.1) e ainda “Abstende-vos de toda a aparência do mal” (1Ts 5.22). Infelizmente, muitos caíram nas ciladas do diabo (2Tm 2.26), mas que bom será se todos hoje pudermos dizer como o salmista: “A nossa alma escapou, como um pássaro do laço dos passarinheiros; o laço quebrou-se, e nós escapamos” (Sl 124.7).

Segundo Max Turner, algumas dessas ciladas do diabo que Paulo já havia registrado na carta aos Efésios são:

alienar a humanidade de Deus pela desobediência (2.1-3; 4.18b,19) e por ignorância e pensamento deturpado (4.17b,18). Ele tenta separar as pessoas umas das outras por meios dos pecados que causam divisão, como a ganância (4.22,23), a falsidade (4.25), a ira (especialmente associada ao diabo em 4.27) e pecados correlatos (4.25-31). [5]

III. Contra os poderes das trevas

1. Carne e sangue

Está claro para todo leitor da Bíblia que a expressão “carne e sangue” nesse contexto refere-se à humanidade, isto é, às pessoas. Independente da classe social, filosófica ou religiosa a que pertençam, a luta da Igreja não é contra elas diretamente. Nossa luta não é contra ateus, evolucionistas, gays, defensores da ideologia de gênero, feministas, nem contra políticos de esquerda ou de direta, etc. Se nossa luta fosse contra a força humana, outra força humana seria o bastante para suplantá-la! As cruzadas católicas bem como as fogueiras da Inquisição medieval que a tantos “hereges” e excomungados do catolicismo romano condenaram, são provas históricas vergonhosas de que enquanto combatermos pessoas, somente estaremos promovendo violência, perseguição e atos desumanos. O grande mentor espiritual que está agindo por trás dessas pessoas descrentes, grupos, instituições ou governos (muitos estão inconscientemente sendo dirigidos por Satanás para promover o mal!) é que deve ser combatido, e não com uso de violência física ou perseguição religiosa, mas com recursos espirituais de que Deus tem dotado a sua igreja: oração, evangelização, ensino, poder do Espírito, bom testemunho, boas obras, etc.

O materialista que ignora o reino espiritual e o sobrenatural, acredita que todo problema da sociedade se resume ao próprio homem; “não há demônios para serem derrotados”, dizem os céticos. Paulo, porém, nos instrui quanto às forças malignas que agem no mundo espiritual e querem também tomar o nosso interior para usar-nos como seus fantoches na prática da malignidade. De posse desse texto bíblico entendemos que o homem carnal é um problema, mas problema, o grande problema, Paulo o identifica: são os principados… potestades… príncipes das trevas deste século… hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.

Acabemos o carnaval e satanás inventará outro modo de instigar a concupiscência dos homens. Proibamos nossos jovens de ficarem nas ruas em bailes funks até alta madrugada, e satanás engenhosamente tramará festivais de pecado, regados à música dançante, drogas e prostituição à luz do meio dia. Criemos leis para reduzir a produção, venda e/ou consumo de bebidas alcoólicas, e satanás inventará novos meios de perpetuar a prisão dos viciados. Agora, proclamemos o evangelho de Cristo no poder do Espírito, ensinemos a Palavra com persistência, e exalemos o bom perfume de Cristo neste mundo vil para então vermos satanás e seus asseclas encontrarem o caminho da fuga! Somente o evangelho de poder, que salva, liberta e transforma é que é a verdadeira solução para erradicar a perversão dos costumes e a conduta deplorável dos homens! Só o evangelho é a solução; todo o resto é mero paliativo.

2. Principados, potestades, hostes espirituais do mal

Paulo usa várias expressões distintas para se referir aos seres espirituais do mal, contra os quais somos chamados a fazer oposição. Há vários postos na hierarquia dos exércitos de Satanás, mas é quase impossível distingui-los. MacDonald tenta uma explicação:

“Talvez se refiram a líderes de espíritos com graus diferentes de autoridade, que equivaleriam no âmbito humano aos nossos presidentes, governadores, prefeitos, presidentes de câmaras e vereadores” [6]

O fato é que em nossas batalhas espirituais lidamos com todas as classes e hierarquias de demônios. Alguns mais poderosos que outros; alguns mais astutos que outros; alguns mais persistentes que outros, etc. Os discípulos lideram com uma situação assim, em que confrontaram certa “casta de demônios” que não puderam expulsar, como faziam costumeiramente sob a supervisão de Jesus (Mt 17.14-21); o próprio Jesus lidou com uma situação em que os demônios demonstraram mais força e resistência do que noutros casos (o episódio do endemoniado gadareno – Mc 5). Diferentemente dos discípulos, porém, o Mestre estava devidamente habilitado para o confronto e impôs fuga àquela legião!

3. Os lugares celestiais

Ninguém há de pensar que a referência de Paulo seja ao lugar celestial onde Deus habita, antes entendemos que esta expressão se refere ao reino espiritual onde as batalhas mais renhidas são travadas. Satanás perdeu seu lugar no céu e nada há que interesse para ele na estratosfera; logo é entre os homens que ele perambula, é aqui em nossa atmosfera que os espíritos malignos estão em operação. Não podemos vê-los, mas os resultados de sua ação são perceptíveis aos nossos olhos: doenças, escravidão dos vícios, perturbação mental, violência doméstica e urbana, imoralidade e desregramento sexual, inversão dos valores, falsas doutrinas, entretenimento pernicioso, guerras, etc.

Conclusão

Com o apóstolo Paulo aprendemos que nossa luta não é contra a carne (Ef 6.10), que não devemos lutar na carne (2Co 10.3), e que nossas armas não são carnais (2Co 10.4), mas são armas “poderosas em Deus para destruição das fortalezas; destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2Co 10.4,5). Pela oração e pela Palavra consagremo-nos a Deus, busquemos incessantemente sua força e creiamos na sua proteção, pois em meio às batalhas do dia a dia, nosso Deus…

“Não desampara nunca,
Nem me abandonará,
Se fiel e obediente eu viver;
Um muro é de fogo, que me protegerá
‘Té que venha a mim o tempo de morrer” [HC, 198]

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Referências
[1] Comentário Bíblico Beacon, vol. 9, CPAD, p. 194
[2] Martyn Lloyd-Jones. O combate cristão – exposição de Efésios 6:10 a 13, PES, p. 14
[3] A.W. Tozer. A vida crucificada, Vida, p. 211
[4] William MacDonald. Comentário Bíblico Popular NT, Mundo Cristão, p. 651
[5] Max Turner in Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, p. 1868
[6] William MacDonal, op. cit.

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Bíblias ficam intactas após incêndio destruir igreja

O Corpo de Bombeiros de Coal City publicou uma foto com as Bíblias intactas, encontradas após o incêndio na igreja dos Ministérios da Liberdade. (Foto: Facebook)O Corpo de Bombeiros de Coal City publicou uma foto com as Bíblias intactas, encontradas após o incêndio na igreja dos Ministérios da Liberdade. (Foto: Facebook)

Chamas devastadoras em uma igreja norte-americana tornaram tudo ao redor em cinzas, exceto bíblias e uma cruz gigante dentro do prédio.

De acordo com bombeiros, que foram apagar incêndio da igreja, localizada em Grandview, Virginia Ocidental, as chamas eram tão intensas, que exigiram esforços de vários grupos de bombeiros. Além disso, o prédio estava tão quente, em uma parte do tempo, que os bombeiros tiveram que recuar.

“Imagine isso, um prédio tão quente que, em determinado momento, os bombeiros tiveram que recuar. Em sua mente, tudo devia estar queimado, transformado em cinzas. Mas nem uma única Bíblia foi queimada e nem uma única cruz foi ferida!! Nenhum bombeiro ficou ferido! Nossas orações pelo pastor e pela congregação hoje”, publicou a página do corpo de bombeiros em um post no Facebook sobre o incêndio que destruiu a Igreja dos Ministérios da Liberdade no domingo de manhã.

Os bombeiros dizem que foram enviados ao local do incêndio em Grandview, na Virgínia Ocidental, por volta das 12h58 de domingo para ajudar o Corpo de Bombeiros Voluntários de Beaver.

“Embora as probabilidades estivessem contra nós, Deus não estava”, disse o departamento.

O site americano ‘Christian Post’ entrou em contato com a denominação ‘Freedom Ministries’ para comentar o incêndio, mas as autoridades não responderam imediatamente.

Em um comunicado no Facebook, compartilhado com uma foto do que parece ser fumaça saindo da igreja em chamas, o ministério prometeu reconstruir o que foi destruído pelo fogo.

“Nós estamos com o coração pesado esta manhã, nossa igreja passou por um um incêndio ontem à noite. Teremos que reconstruir, mas estaremos bem. Nós vamos lutar contra o inimigo e não deixá-lo nos segurar. Estaremos de volta à igreja das 6h às 18h15. Por favor, junte-se a nós em oração. Queremos reunir e orar pelo pastor Phil e Candice”, disse o comunicado. “… No meio da fumaça você pode ver Jesus. Ele estava lá com a gente! OS MINISTÉRIOS DA LIBERDADE ESTÃO INUNDOS, AINDA NÃO ACABAMOS!!!”

Repercussão

O post do Corpo de Bombeiros da Coal City já se tornou viral, causando mais de 3.000 comentários e mais de 40.000 compartilhamentos no Facebook.

“De todos os incêndios de estrutura aos quais atendi nos últimos 20 anos, nem uma Bíblia foi queimada. Elas podem ter danos causados ​​pela fumaça ou carbonizadas nas bordas, mas você ainda pode ler cada página. Nós já devolvemos aos donos muitas Bíblias ao longo dos anos. Isso apenas mostra que a palavra de Deus é mais poderosa do que o fogo e a fúria do diabo, não importa o quão quente esteja. Deus estava vigiando todos vocês ontem à noite, e todo incêndio nos chama”, escreveu o bombeiro Dean Vandall no comentário mais popular do post, que atraiu quase 7.000 reações até a manhã de terça-feira.

Erin Hoover, que já trabalhou como bombeira voluntária, disse que ela também teve uma experiência semelhante com uma Bíblia em um grande incêndio.

“Eu me apresentei como bombeira voluntária em 11/9 para o vôo 93 em Shanksville, Somerset County. Estávamos andando no bosque, buscando por sobreviventes e procurando pelos destroços quando entramos em cena. Encontramos carteiras e papéis, soprando ao vento que foram carbonizados e queimados. Tudo era ilegível. Nós, no entanto, encontramos uma Bíblia. Intacta. Completamente legível. Não falo muito sobre aquele dia, mas me senti compelida a compartilhar minha história também. Eu tenho desordem de estresse pós-traumática dessa chamada. Mas você está certo. Deus está conosco naqueles maus chamados, naqueles dias ruins. Você só precisa olhar para cima”, observou ela no segundo comentário mais popular do post.

Fonte: Guia-me e SputnikNews