
A associação entre a Grande Tartária e os nomes de Gog e Magog é um tema fascinante que cruza a cartografia antiga, a escatologia bíblica e, mais recentemente, teorias da conspiração que circulam na internet.
Para entender essa relação, precisamos dividir o assunto em duas perspectivas: a histórica/cartográfica e a mitológica.
1. A Perspectiva Histórica e Cartográfica
Nos mapas europeus dos séculos XVI, XVII e XVIII, a região da Ásia Central e da Sibéria era frequentemente chamada de “Tartária” ou “Grande Tartária” (Grand\ Tartarie, em francês). Esse era um termo geográfico vago usado pelo ocidente para designar o vasto império dos povos mongóis e turcos (os “tártaros”), e não necessariamente um único país centralizado como os Estados modernos.
Em vários desses mapas antigos (como os de Gerhard Mercator, Abraham Ortelius e Guillaume Delisle), as regiões mais ao norte da Ásia, próximas ao Círculo Polar Ártico, eram de fato rotuladas com os nomes Gog e Magog.
No entanto, eles não eram descritos como “cidades” no sentido moderno, mas sim como:
- Regiões ou Territórios: Indicações geográficas de onde se acreditava que viviam os povos descendentes dessas linhagens bíblicas.
- Montanhas: Frequentemente associadas às montanhas do Cáucaso ou de Altai, onde lendas diziam que Alexandre, o Grande, teria construído uma grande muralha de ferro para isolar esses povos.
2. A Origem Bíblica e Lendária
A razão pela qual os cartógrafos europeus colocavam “Gog e Magog” na Tartária vem de textos religiosos e lendas medievais:
- Textos Sagrados: Na Bíblia (Livro de Ezequiel e Apocalipse) e no Alcorão (Yajuj e Majuj), Gog e Magog são forças proféticas associadas ao fim dos tempos, geralmente descritas como nações guerreiras que viriam do “extremo norte”.
- O Medo dos Povos Nômades: Quando os hunos, os mongóis de Gengis Khan e, posteriormente, os tártaros invadiram a Europa Oriental, os cronistas cristãos medievais, associando a geografia bíblica ao avanço real desses exércitos vindos do norte e do oriente, concluíram que os tártaros eram os próprios povos de Gog e Magog que haviam “escapado” de seu confinamento.
Portanto, colocar esses nomes nos mapas da Tartária era uma tentativa dos cartógrafos da época de conciliar a geografia real (que ainda estava sendo explorada) com as profecias e tradições teológicas.
3. O Mito Moderno da Tartária
Atualmente, existe uma teoria da conspiração na internet que prega que a “Grande Tartária” foi um império global tecnologicamente avançado que foi “apagado” da história por uma suposta elite global no século XIX (a teoria do Mud Flood ou Dilúvio de Lama).
Dentro dessa narrativa moderna, alguns canais e fóruns reinterpretam os mapas antigos alegando que Gog e Magog seriam grandes metrópoles ou províncias fortificadas desse império perdido.
O Fato Histórico: Para a ciência, a história e a geografia, a presença de “Gog e Magog” nos mapas da Tartária reflete o desconhecimento que os europeus tinham da Sibéria profunda naquela época, preenchendo os espaços em branco do mapa com mitos bíblicos, e não a existência de cidades reais com esses nomes.
