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Rick Warren constrói pontes com os muçulmanos

 

Com muitos anos de aproximação, o pastor Rick Warren da Igreja Saddleback é parte de uma iniciativa chamada Caminho do Rei, que tenta unir evangélicos e muçulmanos.

Jim Hinch / Para o jornal Orange Register

O Reverendo Rick Warren, pastor da Igreja Saddleback em Lake Forest e um dos mais influentes líderes cristãos, embarcou numa iniciativa para curar as divisões entre evangélicos e muçulmanos fazendo parceria com as mesquitas do sul da Califórnia e propondo um conjunto de princípios teológicos que inclui reconhecimento de que os cristãos e os muçulmanos adoram o mesmo Deus.

A iniciativa, informalmente chamada de Caminho do Rei, cobre anos de aproximação entre Warren e muçulmanos. Warren interrompeu os jejuns de Ramadã em uma mesquita de Mission Viejo, se encontrou com líderes muçulmanos no exterior e discursou para 8.000 muçulmanos numa convenção nacional em Washington D.C.

Rick Warren, ao centro e sua esposa, Kate, posam para uma foto com a multidão durante a inauguração do Centro PEACE na Igreja Saddleback em Lake Forest em 12 de dezembro de 2011. O centro irá fornecer serviços tais como atendimento médico, aconselhamento, treinamento e alimentação para famílias de baixa renda.

Membros de Saddleback convidaram muçulmanos para um jantar cristão e jogaram futebol inter-religioso num piquenique em Irvine onde compareceram mais de 300 pessoas. (O jogo fez com que imams e pastores competissem contra jovens de ambas as religiões. Os jovens ganharam).

A iniciativa lançada por um proeminente líder cristão para fazer uma ponte entre o que as pesquisas mostram ser um abismo profundo entre muçulmanos e evangélicos culminou em dezembro em um jantar em Saddleback onde compareceram 300 muçulmanos e membros da congregação Saddleback.

No jantar, Abrahan Meulenberg, um pastor de Saddleback encarregado da aproximação inter-religiosa, e Jihad Turk, diretor de assuntos religiosos numa mesquita em Los Angeles, anunciaram o Caminho do Rei como “um caminho para terminar com os 1.400 anos de desentendimento entre muçulmanos e cristãos”.

Os homens apresentaram um documento em que foram coautores demarcando pontos de concordância entre o Islã e o Cristianismo. O documento afirma que os cristãos e os muçulmanos creem em “no mesmo Deus” e compartilham dois mandamentos principais: “amor a Deus” e “amor ao próximo”. O documento também compromete ambas as religiões a três objetivos: Fazer amigos uns com os outros, construir a paz e trabalhar em projetos de serviços sociais mútuos. O documento também cita versos da Bíblia e do Corão lado a lado para ilustrar suas alegações.

“Concordamos em que não iríamos tentar evangelizar um ao outro”, disse Turk. “Nós testemunharíamos um ao outro, mas seria com base no preceito de “Amor ao teu próximo”, não focado na conversão”.

Representantes de Saddleback recusaram permitir Warren se fizesse disponível para comentar. Tom Holladay, pastor sênior associado em Saddleback, disse que a aproximação aos muçulmanos é parte do Plano PEACE, um esforço abrangente para solucionar os maiores problemas do mundo mobilizando governos, negócios e comunidades religiosas.

“Somos nós servindo nossa própria comunidade com muçulmanos aqui no Município de Orange”, disse Holladay. “Nós percebemos que não concordamos em tudo e somos muito abertos em relação a isso… Apenas reconhecemos as diferenças e reconhecemos os pontos em que podemos trabalhar junto”.

Warren enfrentou muitas críticas vindas de alguns evangélicos por sua aproximação aos muçulmanos. Mais tarde naquele ano, ele lançou um comunicado negando terminantemente rumores de que ele dissemina o que os críticos chamam de “Crislã”, uma mistura de Islã e Cristianismo.

O “rumor é 100 por cento falso”, Warren escreveu em Pastors.com, um site que ele fundou e que fornece conselhos para líderes de igrejas. “Minha vida e ministério são construídos na verdade de que Jesus é o único caminho, e nossa Bíblia inerrante é a única autoridade verdadeira”.

Pesquisas mostram que evangélicos são 30% mais propensos do que outros cristãos a terem uma visão negativa do Islã, de acordo com o Pew Forum on Religion and Public Life. Pesquisas também mostram que evangélicos são esmagadoramente favoráveis à conversão de muçulmanos ao Cristianismo e são mais propensos a crerem que o Islã encoraja a violência.

Warren tem repetidamente encorajado os evangélicos a deixarem de lado tais pontos de vista, argumentando que os cristãos são obrigados a tratar todos com amor e respeito, independentemente da religião.

“Não sei se você percebeu isso, mas Deus gosta de variedade”, Warren disse a uma audiência de 8.000 muçulmanos numa convenção de 2009 em Washington D.C., de acordo com uma transcrição publicada pelo site de notícias religiosas beliefnet. “Pessoas de todas as religiões (podem) ser, e discutir, e, sim, até mesmo discordar, sem humilhar ou rebaixar um ao outro”.

A aproximação de Warren aos muçulmanos tem origem direta na localização de sua igreja no multiétnico Município de Orange, que abriga 170.000 muçulmanos.  Warren é vizinho de Yasser Barakat há 12 anos, um muçulmano da Síria que congrega numa mesquita em Mission Viejo a 6 km na rua da Igreja Saddleback. Os vizinhos de Trabuco Canyon foram amigos por anos antes de Barakat perceber que vivia próximo a um pastor cristão mundialmente conhecido.

Quando Barakat descobriu quem Warren era, ele convidou seu vizinho para aprender mais a respeito do Islã. “Eu estava falando com ele por sobre a cerca”, disse Barakat. “Eu disse, Rick, por que você não vai comigo para Síria? Ele disse ‘Claro, vamos conversar sobre isso. Vamos fazê-lo’”.

Warren viajou com Barakat para a Síria em 2006, e Warren e sua esposa Kay, começaram a participar das refeições Iftar na mesquita de Mission Viejo. Iftar é a refeição noturna que os muçulmanos comem após jejuarem o dia todo durante o mês sagrado do Ramadã. Convites se seguiram para participar em conferências em Long Beach, Washington D.C., e em outros lugares.

“Entendemos que para algumas pessoas na comunidade religiosa esses eventos podem ser difíceis de engolir”, disse Yassir Fazaga, imam na mesquita de Mission Viejo. “Mas eu creio que nós temos de começar em algum lugar e só começar a se aproximar e ser acessível às pessoas quando elas nos perguntam sobre quem nós somos”.

Gwynne Guibord, uma sacerdotisa anglicana ordenada e cofundadora de um grupo de evangelismo de Los Angeles que promove relações entre igrejas e mesquitas nacionalmente, disse que a iniciativa de Saddleback é sem precedentes. “Não estou ciente de nenhuma outra igreja evangélica se aproximando da comunidade muçulmana”, ela disse.

Guibor disse que quando ela e Jihad Turk co-fundaram o Grupo Consultivo Cristão-Muçulmanoem 2006, eles enviaram convites para mesquitas, para a arquidiocese católica e para as principais denominações protestantes em todo o sul da Califórnia, mas não para as igrejas evangélicas.

“Eu acho que muitos evangélicos sentem o mandamento bíblico de converterem pessoas ao Cristianismo”, Guibord disse. Como o Grupo Consultivo foi criado para responder ao antagonismo crescente entre as duas religiões, “não teríamos feito progressos” se um dos lados estivesse tentando converter o outro, ela disse. Agora, ela disse, dá para incluir evangélicos nos trabalhos de seu grupo.

Turk disse que o relacionamento entre a Igreja Saddleback e os muçulmanos, apesar de ainda no começo, já tem produzido resultados. “Pessoas (no jantar em dezembro) estavam falando sobre os laços que elas formaram e estavam chorando”, ele disse. Ambos os lados perceberam que compartilhavam ideias erradas sobre a religião um do outro.

“Nós fizemos um jogo de perguntas e respostas no jantar de Natal”, Turk disse, “perguntando sobre questões básicas sobre o Islã e o Cristianismo com as Escrituras, o Corão ou a Bíblia. E ambos os lados perderam… é educativo para todos”.

Barakat disse que ele continua a conhecer Warren como um homem que literalmente ama a seu próximo. Barakat disse que suas crianças sempre podiam contar com Warren para comprar seus doces ou assinaturas de revistas que elas vendiam porta-a-porta para arrecadações para a escola. Os Warren foram anfitriões da família Barakat no jantar de Natal, ele disse.

“Ele me chama de seu irmão muçulmano”, Barakat disse. “Tudo começou com uma amizade”.

Traduzido por Eliseu P. L. J. do artigo: Rick Warren builds bridge to Muslims

Fonte: www.juliosevero.com

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Padre Marcelo Rossi alia-se a evangélicos contra ministra ‘abortista’

 

PorJussara Teixeira | Correspondente do The Christian Post

Setores evangélicos e católicos estão se unindo pela não aprovação do aborto no Brasil. Um grande exemplo foi a declaração do padre Marcelo Rossi ao Jornal Folha de São Paulo nesta segunda-feira, 27, defendendo a soma de forças entre as igrejas.

  • Padre Marcelo Rossi

    Foto: Divulgação

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“Existem princípios que regem a igreja e, se forem violados, há mobilização. Se um candidato for a favor do aborto, não só eu, mas também setores evangélicos vão se mobilizar contra", disse.

A afirmação se refere à reação de setores cristãos contrários à nomeação da nova ministra da Secretaria para as Mulheres, Eleonora Menicucci, que defende a descriminalização do aborto.

A polêmica em trono da ministra que tomou posse em fevereiro foi desencadeada logo em suas primeiras declarações em seu novo cargo, quando colocou o aborto como uma questão de saúde pública e não de ideologia.

Ela equiparou o aborto a questões como o crack e outras drogas, a dengue, o HIV e todas as doenças infectocontagiosas.

Uma das primeiras reações foi do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), da Frente Parlamentar Evangélica, que convocou os fieis para combaterem a nova ministra.

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Cunha escreveu em seu Twitter que a “posse da abortista é sintomática para todos nós e devemos mostrar de forma contundente a nossa revolta. Aborto não.”

A ministra substituiu Iriny Lopes, que vai disputar as eleições municipais pela Prefeitura de Vitória (ES). Além de socióloga, Eleonora é professora e é ex-companheira de cárcere da presidente Dilma Rousseff em sua prisão durante a ditadura.

Em meio à polêmica, a ministra afirmou em sua primeira entrevista oficial que, estando no cargo, adotaria a linha defendida pelo governo sobre o assunto. “A partir do convite da presidente Dilma eu sou governo e minha posição é de governo”, disse.

A união de forças entre lideranças evangélicas e católicas vem a confirmar o peso e a influência cristã na política, e mostra a afinidade sobre temas-chave para os cristãos, como a questão da descriminalização do aborto.

Novo Templo

Marcelo Rossi, durante a entrevista à Folha, também comentou sobre a inauguração do Santuário Mãe de Deus, que terá capacidade para 100 mil pessoas, e onde passará a celebrar suas missas.

De forma pejorativa, ele mencionou o líder neopentecostal Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), que inaugurou na última virada do ano um templo em Guarulhos.

"Você viu o caso do Valdemiro, que parou a Via Dutra? Quero tudo certinho, com alvará. Não estou acima da lei."

O local citado tem capacidade para 130 mil pessoas, e a falta de planejamento na inauguração causou um mega congestionamento da rodovia presidente Dutra, afetando até os passageiros que tentavam chegar ao Aeroporto internacional de Guarulhos.

A igreja de Valdemiro possuía um alvará provisório que permitia a presença de apenas 30mil pessoas no local.

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Usos e Costumes: Doutrinas de Deus ou dos Homens?

Thiago Lima Barros

A questão do comportamento cristão sofre um debate sem paralelo nos últimos duzentos e cinquenta anos. Nesse período, surgiram interpretações sem precedentes anteriores, que terminaram por se tornar majoritárias, ao mesmo tempo em que buscavam justificativas para seus entendimentos ao longo das Sagradas Escrituras. Refiro-me às chamadas doutrinas de usos e costumes, muito em voga principalmente no meio pentecostal histórico, do qual constituem um traço cultural bastante arraigado.

A cerveja do pai da reforma.

Até meados do século XVIII, questões como vestuário, uso do álcool, acesso à informação e à arte seculares, dentre outras, eram desconhecidas da igreja cristã. Mesmo porque o padrão de indumentária europeu era uniforme, as restrições à leitura se restringiam ao Index romanista.
Lutero fabricava sua própria cerveja (na verdade não ele, mas sua esposa Catarina), e Calvino recebia, como parte de seu salário anual em Genebra, sete tonéis de vinho. A igreja era doutrinada a usufruir de tudo com moderação, como produto da Graça de Deus, e não se deixar dominar por nenhuma delas.

Calvino é marca de cerveja européia.

Todavia, o início do movimento metodista nas Ilhas Britânicas veio acompanhado de uma reversão de tendência quanto a esses assuntos, a começar pela questão das bebidas alcoólicas. À época, com o advento da Revolução Industrial, as cidades não oferecem infraestrutura suficiente para atender às demandas da população que aflui do campo para trabalhar na indústria nascente, o que inclui a oferta de água potável. Bebidas destiladas e fermentadas passam a substituir a água. Porém, o ambiente de pobreza extrema em que viviam os operários propicia os excessos no uso de bebidas. A embriaguez se torna uma constante, e se transforma num problema social.

John Wesley foi o primeiro a se insurgir contra os excessos do álcool entre os crentes, e foi o primeiro a articular um movimento de proibição do seu uso. Em seus sermões, Wesley reprovava o uso não-medicinal de bebidas destiladas, como conhaque e uísque, e dizia que muitos destiladores que vendiam seus produtos indiscriminadamente não eram nada mais do que “envenenadores e assassinos amaldiçoados por Deus”. Porém, os Artigos de Religião de Wesley, adotados pela Igreja Metodista Episcopal nos Estados Unidos em 1784, admitiam em seu Artigo XVIII que o vinho é para ser usado na Ceia do Senhor, e preceituavam, no Artigo XIX, que ele deveria ser ministrado a todas as pessoas, e não apenas aos clérigos. Da mesma forma, as recomendações para pregadores metodistas indicam que eles deveriam escolher água como bebida comum e usar o vinho apenas como medicamento ou na Ceia.

O Movimento de Temperança

J. Wesley, o precursor do movimento anti-alcool.

No entanto, o pensamento metodista acerca do assunto era compartilhado por poucas pessoas, até a publicação de um folheto de autoria do médico Benjamin Rush, um dos signatários da Declaração de Independência norte-americana, que deblaterou contra o uso de “espíritos ardentes” (álcool destilado), introduziu a noção de vício e prescreveu a abstinência como única cura.

Apesar da adesão de alguns pregadores proeminentes, o movimento perdeu força durante a Guerra de Secessão, para mais tarde ressurgir por meio da União Feminina pela Temperança Cristã, e foi tão bem sucedido na realização dos seus objetivos que Catherine Booth, esposa do fundador do Exército da Salvação William Booth, observou, em 1879, que quase todos os ministros cristãos estadunidenses haviam se tornado abstêmios. O movimento, liderado por feministas conservadoras como Frances Willard, conseguiu a aprovação de leis anti-álcool em vários estados, e atingiu o seu zênite político em 1919, com a promulgação da Décima Oitava Emenda à Constituição dos Estados Unidos (Lei Seca), que estabeleceu a proibição da venda e consumo de álcool no país inteiro, revogada mais tarde, em 1933, pela Vigésima Primeira Emenda.

Francis Willard ajudou a “secar” os E.U.A.

Inicialmente se opondo apenas ao álcool destilado, a mensagem do movimento de temperança foi mais tarde alterada para defender sua eliminação total, especialmente na Ceia do Senhor. Tal posicionamento foi em grande medida influenciado pelo Segundo Grande Despertar, que enfatizava a santidade pessoal e o perfeccionismo na práxis cristã.

Os efeitos jurídicos e sociais resultantes do movimento, como visto, atingiram seu pico no início do século 20 e começaram a declinar logo depois. Os efeitos sobre a prática da igreja foram principalmente um fenômeno do protestantismo americano. O Pentecostalismo e as Restrições Consuetudinárias – Porém, no ambiente pentecostal, que sofreu, como (e do) Movimento de Temperança um influxo filosófico bastante forte do Movimento de Santidade, (o qual, por sua vez, é resultado direto do Segundo Grande Despertar), o proibicionismo, longe de arrefecer, foi adotado como cláusula pétrea. Afinal, ainda não havia bases teológicas de fundo mais intelectual: tudo era mais voltado ao experiencialismo da glossolalia e da cura divina, o que enfatizava ainda mais a tese de separação artificial do mundo e de suas coisas.

Mais tarde, porém, mesmo com o aprimoramento teológico dos ministros pentecostais, as mudanças de postura foram poucas, e meramente pontuais, fora a tolerância com abusos na rigidez das regras, mormente em locais menos desenvolvidos economicamente. Logo, para além da proibição da ingestão de álcool, surgiriam outras questões nas quais a resposta era uma só: proibido.

Ademais, tanto o pentecostalismo como o neo-pentecostalismo, juntamente com metodistas e grupos afiliados ou decorrentes destes, são os únicos grupos que elevaram tais restrições ao status de doutrina; se não na teoria, pelo menos na prática diária. Os demais ramos da cristandade protestante rechaçam esse tipo de associação, muito embora tambem tenham cometido esse tipo de excesso ao longo da história. Basta ver, nesse ponto, o que sofreram dois músicos cristãos: o alemão Johann Sebastian Bach, que foi obrigado a conter sua criatividade diante do estilo simplório de música imposto pela corte do príncipe calvinista Leopoldo de Anhalt-Köthen; e o brasileiro Luiz de Carvalho, que era anatematizado nos meios batistas por tocar… Violão!

O principe os púlpitos – Spurgeon era fumador de charutos e virou marca. Um outro momento cultural.

Usos e costumes no pentecostalismo brasileiro

Otto Nelson

É com os pentecostais, mormente da Assembleia de Deus, que o proibicionismo do Movimento de Temperança deita suas raízes no Brasil. De início, essa influência não se dá de forma institucional: o debate sobre questões relativas à inserção do pentecostal no mundo, ao contrario do que alguns líderes querem fazer parecer, era intenso e muitas vezes descambava para o rompimento pessoal entre os pastores divergentes. Nessa fase (de 1930 a 1975), o tratamento dessas questões era eminentemente personalista: cada pastor decide acerca das regras comportamentais a serem seguidas pelo rebanho, e muitos o fazem de forma radical.

Foi o caso do presbitério da AD de São Cristóvão (fundada por Gunnar Vingren em 1924), o qual, n’O Mensageiro da Paz da primeira quinzena de julho de 1946, em decisão unilateral datada do dia 4 de junho, sob a presidência do missionário sueco Otto Nelson, estabeleceu regramentos draconianos sobre o vestuário e cortes de cabelo femininos.

Samuel Nyströn

A dureza da Resolução de São Cristóvão, como passou a ser conhecida, aliada à evidente misoginia que a perpassava, não deixaram de ser notadas na 8ª Reunião da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, realizada em Recife em fins de outubro do mesmo ano. Os convencionais exigiram a retratação da congregação carioca. Quase no apagar das luzes da rodada de reuniões, o Presidente da CGADB, o tambem missionário sueco Samuel Nyströn, faz publicar um texto intitulado “Dando lugar à operação do espírito”, no qual rechaça o zelo jacobino da Resolução. Não por acaso, Nyströn abre o artigo com a citação do capítulo 4, versículo 6, do livro de Zacarias: “não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito diz o Senhor dos Exércitos”.

Com a refutação, veio a retratação da AD de São Cristóvão, em janeiro de 1947, e um silêncio de 16 anos acerca de questões consuetudinárias. Elas só voltam à baila em 1962, e de forma pontual. Essa tendência é revertida em 1975, com a publicação de uma resolução na 22ª reunião da CGADB, realizada em Santo André (SP), contendo oito restrições comportamentais, de observância obrigatória para os membros das AD’s. Eis a íntegra da mesma:

E ser-me-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo, e separai-vos dos povos, para serdes meus (Lv 20.26).

A Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, reunida na cidade de Santo André, Estado de São Paulo, reafirma o seu ponto de vista no tocante aos sadios princípios estabelecidos como doutrinas na Palavra de Deus – a Bíblia Sagrada – e conservados como costumes desde o início desta obra no Brasil. Imbuída sempre dos mais altos propósitos, ela, a Convenção Geral, deliberou pela votação unânime dos delegados das igrejas da mesma fé e ordem em nosso país, que as mesmas igrejas se abstenham do seguinte:


1. Uso de cabelos crescidos, pelos membros do sexo masculino;

2. Uso de traje masculino, por parte dos membros ou congregados, do sexo feminino;

3. Uso de pinturas nos olhos, unhas e outros órgãos da face;

4. Corte de cabelos, por parte das irmãs (membros ou congregados);

5. Sobrancelhas alteradas;

6. Uso de mini-saias e outras roupas contrárias ao bom testemunho da vida cristã;

7. Uso de aparelho de televisão – convindo abster-se, tendo em vista a má qualidade da maioria dos seus programas; abstenção essa que justifica, inclusive, por conduzir a eventuais problemas de saúde;

8. Uso de bebidas alcoólicas.

Geziel Gomes

Um detalhe interessante: a resolução acima foi lida na Convenção pelo pastor Geziel Nunes Gomes, a pedido do presidente da CGADB à época, pr. Túlio Barros Ferreira, coincidentemente (ou não) responsável pela AD de São Cristóvão. Ambos se desfiliaram da AD anos mais tarde, aderindo às doutrinas heréticas da Confissão Positiva e do G-12.

Daí por diante, a tendência é de recrudescimento dessa postura até 1999, quando, por ocasião do 5º Encontro de Líderes da Assembleia de Deus (ELAD), ocorre uma espécie de aggiornamento assembleiano: sem abrir mão do positivismo exacerbado de Santo André, tenta-se contextualizar as exigências mais como recomendação do que como decálogo (ou octólogo) denominacional. Mas mesmo esse documento padece de um certo “complexo de Gabriela”, numa indisfarçável demonstração de soberba denominacional:

Quando afirmamos que temos as nossas tradições, não estamos com isso dizendo que os nossos usos e costumes tenham a mesma autoridade da Palavra de Deus, mas que são bons costumes que devem ser respeitados por questão de identidade de nossa igreja. Temos quase 90 anos, somos um povo que tem história, identidade definida, e acima de tudo, nossos costumes sãos saudáveis. Deus nos trouxe até aqui da maneira que nós somos e assim, cremos, que sem dúvida alguma ele nos levará até ao fim.


Conclusão

Nas faculdades de Direito, estudamos que o costume é um dos vários meios de integração do ordenamento jurídico, utilizados em virtude do caráter genérico dos textos legais, que não raro apresentam lacunas. Ele deriva da prática reiterada de dado comportamento, devido à convicção sobre sua obrigatoriedade (a qual, se violada, acarretaria alguma sanção), e seu uso deve ser uniforme, constante, público e geral.

Túlio Barros

No entanto, a história dos avivamentos pelos quais a Igreja Cristã passou a partir do século XVIII, malgrado seus benefícios espirituais, teológicos, éticos e sociais, trouxe um grave efeito colateral para essa mesma Igreja: uma prática de usos e costumes nascida não da convicção do corpo iluminado pelo Espírito Santo, como deveria ser, mas do tacão dos líderes. Embora siga uma linha pentecostal clássica, seja neto de assembleianos por parte de pai e creia que a conduta cristã deva ser diferenciada da que é corrente no mundo, creio que essa jurisprudência deve ser escrita nas tábuas do coração, e não imposta de maneira bonapartista pela liderança, por mais bem-intencionada que esta seja.

Nenhum cristão realmente nascido de novo em Cristo, em sua saníssima consciência, vai defender a libertinagem, vestimentas indecorosas, embriaguez, enfim, uma postura de evidente mundanismo. Precisamos, de fato, ser santos como o Nosso Senhor o é. O problema é que, no afã de vivenciar essa santidade, houve um retorno inconsciente ao legalismo mosaico e aos seus rudimentos fracos, e o bebê foi jogado fora junto com a água do banho. Ou seja, a fruição dos bens dados pelo Senhor ao ser humano (quem lê, entenda) foi relegada, em alguns casos, a uma condição de conduta pecaminosa, mesmo que não ofenda as Escrituras em momento algum.

Cuidados com o corpo e o vestuário são pecado? Jamais! Antes, evidenciam o cuidado que temos com o templo do Espírito Santo: nosso corpo. Sem extravagâncias, mas com elegância. E o vinho, não alegra o coração do homem (Sl. 104:15)? E, da mesma forma, a embriaguez é condenada (Pv. 20:1). Sem contar que o mau uso que se faz dos meios de comunicação não os torna invenções de Satanás. Afinal, se a televisão não podia sequer entrar nos lares dos crentes, como os herdeiros dos que contra ela verberavam hoje dela se valem? Enfim, os lineamentos para o usufruto das dádivas de Deus são explícitos na Bíblia: basta segui-los, pois todas as coisas nos são lícitas, mas não nos deixamos dominar por nenhuma delas (I Co. 6:12). Encerro rememorando o rasgo de sensatez que o Nosso Deus e Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo bafejou no coração do pastor Samuel Nyströn, por ocasião do debate acerca da Resolução de São Cristóvão, no gracioso libelo “Dando lugar à operação do espírito”, orando ardentemente para que todos os cristãos, lideres principalmente, façam dessas palavras sua prática diuturna de vida:

Em qualquer tempo, lugar ou circunstância, devemos lembrar-nos que não se consegue fazer a obra do Senhor por força nem por meios violentos, resoluções ou imposições, mas a obra do Senhor se realiza pela intervenção criativa de Deus e pela lei do crescimento externo da obra do Senhor, mas igualmente quando se tratar do crescimento interno desta, tanto individual como coletivamente.


Mesmo durante a Dispensação da Lei, a Lei não conseguiu outra coisa senão descobrir e pôr o pecado em atividade, tendo como resultado a morte (…) enquanto a fé não tinha vindo, a Lei teve um alvo como pedagogo: conduzir homens a Cristo. Mas, tendo vindo a fé, não estamos mais debaixo do pedagogo (a Lei), e nem devemos fazer ressuscitar leis ou inventar outras leis para que não fiquemos no lugar dos gálatas, que foram chamados insensatos e a respeito dos quais Paulo temia que todo o seu trabalho se tornasse vão (…) Cristo veio com a graça e, então, a Dispensação da Lei se encerrou. Em lugar do mandamento prévio. que foi ab-rogado por sua fraqueza e inutilidade, pois ‘a Lei nada fez perfeito’, foi introduzida uma melhor esperança, pela qual nos chegamos a Deus: Cristo, que é nosso Sacerdote, segundo o poder de uma vida indissolúvel (…) Portanto, o que realmente tem valor para nós é ‘a fé que opera por amor’, por isso não nos justificamos pela Lei ou leis, para não sermos decaídos da graça e separados de Cristo (Gl 5.6).


As ordenanças para manifestar humildade e servidade com o corpo servem para satisfazer a carne, o erro, e elas com facilidade arranjam os que se julgam mais santos do que outros, e isto resulta em inchação vã e cria espírito de fariseu, que é o maior impedimento para as bênçãos de Deus.


Há muitos países e muitas formas de se trajar neste mundo, bem como muitos climas diferentes, e tudo isto deve ser considerado, mas como a Palavra de Deus diz: ‘com modéstia e sobriedade’. O que a Escritura ensina em relação a este assunto é que as mulheres devem ser castas e tementes a Deus, tanto as que são casadas como as moças (…) lembremo-nos também que há muitas outras coisas que são igualmente perigosas para a obra do Senhor, que só pelo Espírito Santo poderão ser removidas, como o amor ao dinheiro (…) o homem ostentado justiça própria, criticando tudo e todos, é um indivíduo perigoso para o avanço da unidade da obra do Senhor.

Genizah

06-06-16 013

Rev. Ângelo Medrado, Bacharel em Teologia, Doutor em Novo Testamento, referendado pela International Ministry Of Restoration-USA e Multiuniversidade Cristocêntrica é presidente do site Primeira Igreja Virtual do Brasil e da Igreja Batista da Restauração de Vidas em Brasília DF., ex-maçon, autor de diversos livros entre eles: Maçonaria e Cristianismo, O cristão e a Maçonaria, A Religião do antiCristo, Vendas alto nível, com análise transacional e Comportamento Gerencial.