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A origem do declínio dos dons espirituais

É talvez, dos maiores desafios da igreja, encontrar o ponto de equilíbrio, de tal forma que possa fugir das heresias, mas não se tornar um clube de amigos
Moisés C. Oliveira
  – via gospel prime

Fogo e gelo. (Foto: Iván Tamás por Pixabay)

É praticamente unanimidade entre os historiadores do Cristianismo que a crescente institucionalização da Igreja foi acompanhada pelo desaparecimento dos dons espirituais, especialmente o de profecia, que à época era tido como um ofício tal como o de bispo e pastor, segundo o professor James L. Ash, Jr.

Institucionalização, aqui entendida, é a ênfase demasiada na organização que, por sua vez, provoca a hierarquização, em detrimento de outros aspectos, inclusive os espirituais da igreja.

Há um brilhante livro escrito por Adolf Harnack, delineando claramente esse aspecto e demonstrando todas as conexões dos fatos que levaram ao declínio do dom de profecia desde o período da igreja primitiva. Não apenas Harnack, mas outros historiadores protestantes do dogma, ligam o desaparecimento do ofício de profeta com a evolução da teologia canônica.

 Advertência

Hoje o ambiente cristão protestante está com opiniões polarizadas sobre esses assuntos, daí a importância de deixar evidentes os pressupostos que serão tratados. Há por um lado, o justo temor dos pastores em verem seus cultos tornarem-se num caos generalizado, com a liturgia sendo interrompida a todo tempo por “profetas” – mais íntimos com o Eterno que eles próprios – querendo entregar mensagens mais importantes que a sua ao rebanho. Por outro lado, os membros que sentem cada vez mais acuados diante da teologia racionalista, apontando para um Deus idealizado, numa submissão constrangedora à filosofia e ideologias contemporâneas, que vêm sendo divulgadas e abafam, sobremodo, os dons espirituais.

Assim como há um árduo caminho para alguém se tornar pastor, também o havia para o profeta. Ambos, em tese, falam em nome de Deus. Nos livros de Samuel (1Sm 10:11) e Reis (2 Rs 4:38), do Antigo Testamento temos exemplos da escola de profetas. Portanto, profetizar era algo que estava sujeito a educação, ao aprendizado. Profeta, no contexto das passagens citadas, era um ofício exercido – aprendido e exercitado praticamente em pé de igualdade com as lideranças das congregações –, distinto de como entendemos hoje  o dom de profecia.

Quanto ao pastor, para a igreja contemporânea, é praticamente questão fechada entre as denominações que ele curse Teologia, que contemple uma grade mínima de disciplinas para capacitá-lo e situá-lo na realidade da igreja e da sociedade em que vive. Ambos têm a responsabilidade de entregar mensagens que norteiam a Igreja nessa terra. Se ponderarmos no quesito função e papéis determinados, veremos que a autoridade e a liderança em conduzir o rebanho está com o pastor; ao profeta, no contexto contemporâneo e relativo ao dom e não mais ao ofício, cabe anunciar – apenas quando houver o que anunciar – a mensagem à Igreja, que obviamente deve estar em perfeita harmonia com as Escrituras Sagradas. Disputar espaço e holofote com pastor não é função de profeta, muito menos entregar profecias a granel de assuntos corriqueiros em reuniões feitas à sombra da liderança.

Para o devido entendimento desse dilema, é preciso ter em mente que há diferentes tradições no seio da Igreja que interpretam de maneiras distintas a profecia e os dons espirituais. De ambos os lados há nomes de peso. Porém esse artigo vai em outro viés; antes se restringe unicamente a expor os fatos limitados a suposta origem, que determinaram o declínio dos dons espirituais e do ofício de profeta, do que comparar interpretações sobre os dons e tomar partido na questão.

 A institucionalização

A institucionalização da Igreja primitiva, avançou muito como uma resposta contra a perseguição do estado e contra as heresias tais como o gnosticismo e o marcionismo. Reagindo contra esses inimigos, a Igreja formalizou o culto e centralizou o poder nos bispos. Desafortunadamente, esse movimento em direção à organização estrutural, trouxe consigo uma mudança semântica no significado da palavra “bispo”.

A palavra bispo é derivada do grego epískopos (ἐπίσκοπος). Na sua forma verbal significa vigiar ou supervisionar. Essa palavra não é restrita ao Novo Testamento e foi vastamente empregada pela cultura/literatura greco-romana do primeiro século para indicar indivíduos com funções de tutores, inspetores, vigilantes e ou superintendentes. Na igreja apostólica, a palavra foi usada para designar aqueles que ocupavam função de supervisionar outros indivíduos em fatos relacionados a igreja. Em Atos 20:17,28 e Tito 1:5,7 descreve os mesmos indivíduos que eram conhecidos por bispos, como sendo também os mais velhos (anciões), de quem se esperava também que pastoreassem o rebanho.

Com a crescente ênfase na estrutura organizacional, os bispos foram separando-se em congregações distintas e tornando cada vez mais prestigiados e poderosos. Essa mudança surge nos escritos de Inácio, bispo de Antioquia, em meados de 110 D.C., já preocupado em defender e promover a autoridade e prestígio dos bispos contra os hereges. Na Epístola aos Esmirniotas, ele vai declarar que “apenas essa Eucaristia que está sob o bispo será considerada válida”. Também asseverava que além do bispo, não há legitimidade em batismos e casamentos. Em outra epístola, a do Trálios, chega a admoestar que “não se faça nada sem o bispo”.

A História demonstra que a tendência de institucionalizar a função do bispo, iniciada com Inácio, permaneceu e culminou no eclesiasticismo – Afeição excessiva a formas, métodos e práticas eclesiásticas, Dic. Michaelis – e no estabelecimento do episcopado monárquico. Houve a partir daqui, uma valorização cada maior das práticas eclesiásticas em detrimento das experiências espirituais e pessoais.

Também significativo, é que as manifestações espontâneas do Espírito Santo se tornassem cada vez menos desejadas e aceitas pelas autoridades eclesiásticas, a saber os bispos. A solução proposta por James L. Ash, Jr. para o questionamento de que os dons foram superados com o estabelecimento do cânon do Novo Testamento é que “os bispos, e não o cânon, rejeitaram a profecia”. A autoridade de falar à Igreja em nome de Deus é deslocada para aquele que ocupa o cargo de bispo e não mais naquele que foi agraciado com o dom espiritual, ou mesmo aqueles que exerciam o ofício de profeta.

A tensão gerada pela oposição dos que pretendiam a continuidade da liberdade do Espírito, contra os que defendiam a emergente organização estrutural é tema ainda aberto, desde aquela época. Há inclusive, a eminente escritora, socióloga e pesquisadora do Movimento Pentecostal norte-americano Margaret M. Poloma, que destaca em seus livros essa mesma tensão aos quais ela nomeia por dilemas. Inclusive há um livro seu que trata desse dilema que perdura no meio evangélico, visto pela perspectiva das Assembleias de Deus nos EUA (The Assemblies of God at the Crossroads: Charisma and Institutional Dilemmas).

A liberdade e espontaneidade do Espírito Santo foram vencidas pelo formalismo ritualístico. No seu livro “História do Pensamento Cristão”, Paul Tillich, teólogo alemão lamenta que a institucionalização tenha vencido a liberdade do Espírito. O passo seguinte dessa opção feita pela Igreja, agora determinava que os líderes que ocupavam os cargos de bispos não careciam mais dos dons espirituais para exercer tais cargos; ao mesmo tempo arrogavam para si exclusividade na comunicação e como representantes da vontade de Deus.

Essa tensão se tornou evidente quando Montano começou a defender a importância dos dons espirituais na Igreja, especialmente o de profecia.

 Detalhe importantíssimo

Um detalhe importante sobre os textos redigidos pelo bispo Inácio de Antioquia, defendendo a supremacia do episcopado era que ele também era profeta. Portanto, esses documentos eram dirigidos aos seus pares, pois ele também exercia, nessa época, o dom de profecia, concomitante com o de bispo. Há um texto dele na Epístola aos Filadelfos que diz: “Gritei enquanto estava com vocês. Falei com grande voz, com a própria voz de Deus. ‘Deem atenção ao bispo, ao presbitério e aos diáconos’. Mas alguns suspeitaram de mim por dizer isso, porque eu teria conhecimento prévio da divisão de algumas pessoas; mas Aquele a qual estou ligado é testemunha por mim de que eu não tinha conhecimento disso da parte de nenhum ser humano, mas do Espírito, que pregava, e dizia isso, ‘Não faça nada sem o bispo’.”

A novidade iniciada por Inácio foi a máxima: “não faça nada sem o bispo”. No entanto essa asserção da supremacia do bispo não justifica por si, o desaparecimento do ofício de profeta. A falência do ofício, pode estar ligada a uma ideia que passa a atribuir ao bispo, tanto o dom de profecia quanto o ministério de bispo. Arnold Ehrhardt, argui que a partir de Inácio de Antioquia o que ocorre é “um lento amalgamento do ministério profético com o ministério episcopal” (The Apostolic Succession).

Contribuem para esse ponto de vista, o fato de Policarpo, o mártir, em meados do segundo século, também ser chamado de “profético” – atribuição só aplicada a bispos respeitados pela comunidade.

Melitão de Sardes era outro bispo que profetizava. Polícrates descreve-o como “aquele que vivia inteiramente no Espírito Santo”. Tertuliano também afirmou que os montanistas posteriores o consideravam um profeta. Há um inclusive uma homilia sua, “Sobre a Páscoa”, que ao final, o Cristo Ressuscitado fala aos leitores em primeira pessoa, aludindo assim à retórica profética, na qual estudiosos apontam como uma linguagem extática.

Portanto Inácio de Antioquia não foi o único a reunir tanto o dom de profecia, quanto o ministério episcopal. Após ele, o ofício de profeta foi virtualmente extinto; enquanto o dom de profecia continuou aparecendo ocasionalmente em alguns bispos.

Por irônico que possa parecer, quando Inácio profetiza, “não faça nada sem o bispo” e conquista aceitação por parte da comunidade, a autoridade e a liberdade essencial do ofício de profeta sofreram um golpe definitivo e essa profecia curiosamente contribui para a extinção do ofício.

A crítica de Inácio arrogando poder ao bispo, era muito mais relacionada ao poder e a defesa da Igreja contra heresias que surgiam pela boca de qualquer um, desmantelando o ensinando dado à luz das Escrituras, do que contra a profecia propriamente, visto que ele mesmo era profeta.

 Onde estão os profetas?

No final do segundo século, Montano surgiu com a embaraçosa pergunta à Igreja: “Onde estão os profetas?” Esse questionamento, obviamente, só tornou-se cabível devido ao desaparecimento dos profetas, os de ofício, principalmente.

Montano foi um personagem polêmico do segundo século, que distinguia-se pela operação de sinais e maravilhas, bem como de milagres; a ponto dos seus detratores reconhecerem que “sua vida e doutrina eram imaculadas”.

A interpelação de Montano, foi provocada pela sua preocupação com o crescente formalismo adotado pela igreja e pela frouxidão moral cada vez mais evidente e tolerada entre seus membros. Suas reivindicações eram que se desse a devida importância à direção sobrenatural do Espírito Santo, a uma religiosidade ascética e a segunda vinda de Cristo.

A qualificação para o ministro da Igreja, segundo Montano, era, sobretudo, possuir dons espirituais ao invés de indicações para tais cargos. Seus seguidores, os montanistas – como foram chamados – eram reconhecidos por falarem em línguas estranhas.

Essa ênfase nos dons espirituais trouxe a Montano conflitos com os líderes da Igreja, que contestaram assegurando que o ofício eclesiástico sobrepunha-se a qualquer dom espiritual. Também tiveram problemas na maneira como Montano e seus seguidores entregavam as profecias. Foram acusados de profetizar em estado de êxtase, embora não tivessem tido problemas em comprovar o conteúdo das profecias. Acreditavam que esse expediente de profetizar em frenesi, ou estado de êxtase, era prova da origem demoníaca das mensagens.

Vários sínodos posteriores censuraram Montano e seus seguidores, demonstrando assim, o impacto desconcertante que a sua pergunta causou na Igreja.

O apoio a Montano se alastrou pela Europa, Norte da África e Oriente Médio. Eusébio indica que Irineu foi enviado a Roma para interceder em nome dos montanistas. Tertuliano foi outro que tomou partido em favor de Montano. No seu texto “Contra Práxeas”, Tertuliano chega a afirmar que o bispo de Roma reconhecia os dons de profecia de Montano. Outra afirmação famosa sua é a de que Práxeas prestou duplo serviço; a Roma e ao diabo: “Ele [Práxeas], destituiu a profecia e trouxe a heresia. Ele colocou em fuga o Paracleto e crucificou o Pai”. Tertuliano também escreveu sete livros sobre a profecia em êxtase (extática) que foram ou perdidos ou destruídos.

John Wesley, teólogo cristão do século 18 e quase mítico pregador, foi outro que apoiou a visão de Montano após ler o livro de John Lacy “The General Delusion Of Christians Touch

Epílogo

O grande problema em estudar o Montanismo é que os textos disponíveis são apenas dos seus detratores, não restando os da sua defesa.

Inácio de Antioquia, também era profeta. Não confirmado através dos documentos históricos se de ofício ou por dom.

Esse dilema provocado pela exigência, até certo ponto natural, da organização da igreja e ao mesmo tempo liberdade e espontaneidade do Espírito Santo que deveria ser mantida, é problema ainda não superado. É talvez, dos maiores desafios da igreja, encontrar o ponto de equilíbrio, de tal forma que possa fugir das heresias, mas não se tornar um clube de amigos com reuniões pálidas e previsíveis, tratando e falando quase que de uma filosofia de vida, distante quilômetros da sua origem e vocação.

Fica o texto do Apocalipse de João que parece contemporizar a profecia ao longo do tempo, na Igreja; “Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo” (Apocalipse 1:3).

Bibliografia
ASH, James L.  Jr. – “The Decline of Ecstatic Prophecy in the Early Church” – Theological Studies 37 (1976).
HYATT, Eddie L. – “2000 Years of Charismatic Christianity” – Charisma House, Florida (2002).
BORING, M. Eugene – “How May We Identify Oracles of Christian Prophets in the Synoptic Tradition?” Journal of Biblical Literature 91 (1972).
EHRHARDT, Arnold – “The Apostolic Succession”, Londres, (1953).
HARNACK, Adolf – “Outlines of the History of Dogma”, Funk & Wagnalls Company, Nova Iorque, (1893).
Moisés C. Oliveira

Formado em Letras (Literatura Inglesa e Portuguesa), pastor assembleiano, professor da EBD e de teologia, residindo em São José, SC.
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John MacArthur insulta os evangélicos: “Ser pentecostal é uma heresia e uma blasfêmia”

O prestigioso e mundialmente reconhecido pastor, John MacArthur, fez declarações que abalaram a atmosfera cristã evangélica da América Latina.

Há um ano, assegurei que na América Latina o Evangelho não era conhecido, uma afirmação que foi criticada por dezenas de milhares de cristãos evangélicos em todo o continente americano.

Nesta oportunidade, vamos nos referir a uma das declarações feitas em seu livro “Strange Fire”. Nele, MacArthur rejeita desdenhosamente o movimento pentecostal ou carismático dizendo que aqueles que o seguem são parte de “uma igreja falsa tão perigosa quanto qualquer culto ou heresia que tenha atacado o cristianismo”.

Diante de tais acusações, muitos pastores pentecostais fizeram reivindicações diferentes às declarações de John MacArthur.

O coração do livro tem suas raízes na doutrina calvinista do sesacionismo, significando que os dons do Espírito Santo não existem mais hoje, e que a manifestação de Deus é encontrada somente em sua Palavra.

Esta doutrina apoiada por MacArthur não corresponde às Escrituras ou ao que foi ensinado por milhares de cristãos do passado em diferentes livros e testemunhos.

Aqui estão alguns exemplos:

Justino Mártir (100-165): “Porque os dons proféticos permanecem conosco até o tempo presente. Agora é possível ver entre nós mulheres e homens que possuem dons do Espírito de Deus “.

Agostinho (354-430): Em sua Cidade de Deus, Agostinho fala de curas e milagres que ele tem observado em primeira mão e, em seguida, diz: “Eu estou tão pressionado pela promessa de terminar este trabalho não pode gravar todos os milagres I Eu sei “.

E fundamentalmente o que a Bíblia diz:

“E acontecerá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, vossos filhos e filhas profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos velhos sonharão. Sobre os meus servos e os meus servos derramarei o meu Espírito naqueles dias, e eles profetizarão ”(Atos 2: 17-18).

Aqui você pode ver um vídeo em que John Mac Arthur fala sobre isso:

Fonte: Notícia Final

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A contemporaneidade dos dons: um panorama histórico

Do Novo Testamento à Igreja Atual.

         A contemporaneidade dos dons: um panorama histórico

No original grego, a palavra “dom” é charisma, que significa presente, manifestações do Espírito que nos são oferecidas mediante a graça divina por parte de Deus como o doador dos dons. De acordo com o pastor Russel N. Champlim[1], “charisma indica os dons do Espírito, as suas graças, gratuitamente conferidas para a obra do ministério. Além disso, enfoca também o dom da graça, que nos traz a salvação’’. Empreender uma busca sincera para ser cheio do Espírito Santo e receber os dons do alto é uma atitude correta. O apóstolo Paulo nos orienta desta forma: “Enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18).

A operação dos dons e o Novo Testamento

Com os dons engrandecemos o reino de Deus, porque é por intermédio de nossa vida que se manifesta a sua glória. Os dons são concedidos mediante a graça de Deus. “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Por meio da sua bondade Deus expressa sua graça de várias maneiras “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso” (1 Co 12.4-7). Na Bíblia existem muitos dons, divididos em três classes: os dons de serviço diaconal (Rm 12.6-8), os dons ministeriais (Ef 4.11) e os dons do Espírito (1 Co 12.8-10).

A Doutrina do Espírito Santo na Igreja  Cristã a  base dos dons

O estudo dos dons não deve não apenas ser abordado do ponto de vista bíblico, mas também deve ser feita uma análise histórica a respeito das manifestações destes carismas ao longo dos séculos, bem como no surgimento do movimento pentecostal a partir de 1900, na escola bíblica de Topeka, nos Estados Unidos[2]. A manifestação dos dons espirituais tem sido objeto de estudo tanto de pesquisadores cristãos quanto de estudiosos não-confessionais. Estes estudos são laborados geralmente por estudiosos de ciências da religião, matéria que estuda a influência religiosa sobre o homem.

Os cristãos primitivos, até o início do quarto século, acreditavam que havia um Espírito Santo da mesma natu­reza do Pai e do Filho. Criam que, por meio de Cristo, eram reconciliados com o Pai. Os crentes confessavam esta fé no ato do batismo e no recebimento da bênção apostólica. Não havia entre os teólogos da época uma definição da Pessoa e ofício do Espírito Santo. No século terceiro a controvérsia ariana tomou vulto e o Concílio de Nicéia, em 325 d.C., e logo em seguida o Concílio de Constantinopla, em 381 d.C., foram convocados para definir a doutrina do Espírito Santo.

O Credo Apostólico afirma simplesmente[3]: Creio no Espírito Santo, estas mesmas palavras foram afirmadas no Credo Niceno, mas no Credo de Constanti­nopla, ficou definida a doutrina do Espírito, com a seguinte forma: “Creio no Espírito Santo, o divino, o doador de vida, que procede do Pai, o qual deve ser adorado e glorificado com o Pai e com o Filho, e o qual falou pela boca dos pro­fetas.”

Os dons e os país da Igreja

Durante o período patrístico, o famoso período dos pais da Igreja, houve uma ênfase acerca da importância dos dons espirituais, como legitimado pelas palavras de Irineu: “Senhor, único e verdadeiro Deus, faça que domine em nós, por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, o Espírito Santo”[1]. De modo semelhante, Ireneu explica na Demonstração da pregação apostólica I, 1,6s: “O terceiro fator principal é, pois, o Espírito Santo, por meio do qual os profetas profetizaram e os pais aprenderam as coisas divinas, os justos caminharam na estrada da justiça, o qual na plenitude dos tempos foi derramado de novo sobre a humanidade e sobre o mundo inteiro para recriar os homens para Deus. O nosso renascimento no Batismo é efetivado por estes três fatores, enquanto o Pai nos dá a graça do renascimento mediante o Filho no Espírito Santo. Aqueles que, de fato, recebem e levam em si o Espírito Santo são guiados ao Verbo, isto é, ao Filho. O Filho, por sua vez, os guia ao Pai, e o Pai os torna participantes da imortalidade. Sem o Espírito não se pode ver o Verbo de Deus, e sem o Filho ninguém pode ir ao Pai. De fato, o saber do Pai é o Filho. Mas o saber do Filho de Deus se obtém mediante o Espírito Santo, e o Filho dispensador doa o Espírito por beneplácito do Pai, àqueles que o Pai quer e como quer”[4].

Como fruto do ensino bíblico, o concilio de Nicéia no ano de 325, inseriu a crença no Espírito Santo: “Cremos no Espírito Santo”. Sendo isso fruto do ensino dos apóstolos, como legitimado por meio das prédicas bíblicas do apóstolo Paulo que ensinou à Igreja de Roma sobre os dons de serviço, a  Igreja em Éfeso sobre os dons ministeriais e a Igreja de Corinto doutrinou acerca dos dons do Espírito Santo.

O apóstolo Pedro orientou os membros de todas as épocas para que servissem a Deus cada um conforme o seu dom. Portanto, a manifestação dos dons espirituais era uma realidade no seio da Igreja Apostólica, tornando cada culto uma celebração viva da presença de Deus na Igreja (I Co 14.26). Já no século II da era cristã, tanto Justino Mártir, quanto Hirineu reconheciam que os dons miraculosos continuavam a operar na Igreja e por volta de 150, no entanto, declara:

“… ouvimos que também muitos irmãos da Igreja têm carismas proféticos, falam todas as línguas graças ao Espírito, manifestam os segredos dos homens para beneficio deles e explicam os mistérios de Deus”.[5]

Assim como Irineu, Orígenes também confirmou a importância da ação do Espírito nos primeiros séculos e por volta de 240, escreve: “Ainda hoje se conservam os traços daquele Espírito Santo que foi visto em forma de pomba; os cristãos expulsam os demônios, curam diversas doenças e veem também alguns acontecimentos futuros por vontade do Verbo” [6]

Já Tertuliano olhava com bons olhos a operação dos dons e posteriormente converteu-se ao Montanismo, um movimento fundado por Montano, que, apesar de alguns exageros, ensinava sobre a operação dos dons[7]. João Crisóstomo e Hilário apoiavam a contemporaneidade dos dons miraculosos. Porém, no terceiro século, Constantino assume o controle da Igreja e une esta com o governo, o que gerou um estado de letargia dentro da comunidade cristã da época, pois muito do paganismo romano foi incorporado ao culto cristão.

Controvérsias teológicas que envolveram os Dons

Portanto com o passar do tempo, houve um interesse cada vez menor por parte dos cristãos em estudar os dons, isso gerou várias controvérsias teológicas sobre o seu uso após o período apostólico. Agostinho, considerado o maior teólogo de todos os tempos, no início de sua carreira se opunha veementemente ao exercício dos dons miraculosos em especial o dom de línguas:

“…Nos tempos antigos o Espírito Santo veio sobre os crentes e eles falaram em línguas, que não haviam aprendido, conforme o Espírito concediam que falassem. Estes foram sinais adaptados ao tempo. Pois aquilo foi o sinal do Espírito Santo em todas as línguas [idiomas] para mostrar que o Evangelho de Deus era para ser espalhado a todas as línguas sobre a terra.  Isto foi feito por um sinal, e o sinal findou.”[8] 

Já Tomás de Aquino, um dos mestres da igreja no século XIII d.C, considerava os dons como um fator determinante para a Igreja. Ao longo dos séculos, os dons miraculosos foram aceitos entre os discípulos de Montano no século III e entre grupos menores, como os quaquers e os grupos de evangelização de fronteira nos Estados Unidos entre os séculos XVIII e XIX.

A Reforma Protestante a doutrina do Espírito e os dons

Entre o período pós-patrístico e a reforma, houve pouca sistematização do ensino sobre os dons e não houve muito interesse sobre este tema. Com o advento da Reforma Protestante e por meios dos escritos dos reformadores, começou-se a escrever mais acerca deste tema, sendo João Calvino um dos primeiros teólogos a sistematizar a doutrina do Espírito Santo, ficando conhecido como o teólogo do Espírito Santo[9]. Portanto, com o passar do tempo,  alguns dons bíblicos passaram a ser conhecidos e aceitos no meio cristão e como consequência, houve a manifestação poderosa de dons nos ministérios de  João Wesley, Finney e Moody. Em seu livro sobre o dom de profecia, o destacado professor de Teologia, Wayne Grudem, afirma que Charles Spurgeon constantemente exercia o dom de profecia no meio de suas mensagens[10].

A Teologia da Reforma e o Cessacionismo

Entretanto, muitos dos reformadores eram cessacionistas, pois criam em alguns dons, mas, acreditavam que alguns carismas haviam cessado no primeiro século com a morte do ultimo apóstolo. Portanto, de acordo com Gordon Chow:

“ O Cessacionismo: é  a teoria de que muitos milagres, bem como dons espirituais, existiam em função da formação do cânon do Novo Testamento – quer dizer que houve um poderoso derramamento de milagres na vida de Jesus, e dos apóstolos, mas que cessou depois de encerrado o cânon do Novo Testamento.” O Cessacionismo  sempre foi muito difundido no contexto das igrejas reformadas dos EUA, e teve como base alguns escritos de algum país da igreja e a sistematização dos escritos de Benjamim Warfield teólogo e professor de Princeton. Atualmente, o cessacionismo é muito popular entre alguns pastores reformados tanto nos Estados Unidos como no Brasil.

A Teologia da segunda bênção: a base do pentecostalismo moderno

Com o passar do tempo, houveram muitos debates, e a partir dos estudos e da experiência de homens como John Wesley e Moody, houve um maior interesse pelos dons espirituais.

Enquanto teólogo, evangelista e estudioso das Escrituras, John Wesley procurou influenciar o Cristianismo por meio de um cristianismo experiencial, mas que não perdesse sua influência bíblica e pregou insistentemente a idéia da “Segunda Benção” que seu amigo John Fletcher (1729-1785) chamou de “batismo no Espírito Santo”, o que possivelmente foi uma das grandes influências recebidas pelo Pentecostalismo. Portanto, mesmo antes do chamado pentecostalismo moderno florescer, já havia diversas vozes provenientes dos movimentos de Santidade, que enfatizavam a doutrina do “batismo no Espírito Santo”, sendo mais tarde, e com o surgimento do movimento pentecostal no início do século XX, incorporado ainda uma terceira benção, ou a Doutrina da Evidência Inicial do batismo no Espírito Santo, que seria o falar em línguas, ensino este formulado por Charles Parham, o pai do Pentecostalismo.[11]

O Movimento Pentecostal e a contemporaneidade dos dons

Com o passar do tempo, foram surgindo movimentos com fundamentação e orientação variadas e entre eles o chamado Segundo Grande Despertamento, que tinha como característica o  chamado “Movimento de Santidade” o que fundamentou o Movimento Pentecostal americano que nasceu em uma Escola Bíblica, dirigida por Charles Parham, o qual, após as aulas, buscava a Deus em oração junto com seus alunos. Entre os alunos mais ilustres estava Seymour, o pregador do Movimento Pentecostal da Rua Azusa em 1906, na chamada Igreja da Fé Apostólica, que deu origem ao Movimento Pentecostal no mundo e que influenciou os jovens Daniel Berg e Gunnar Vingren, os quais trouxeram o Movimento para o Brasil.

Portanto, os dons miraculosos e a contemporaneidade de todos os dons foram aceitos no começo do século XX, com o surgimento do movimento pentecostal, que teve seu início na Escola Bíblica de Topeka, em 1904, atingiu a Igreja da Rua Azuza, em Los Angeles, a partir de 1906, e de lá contagiou todo o cristianismo, chegando ao Brasil em 1911. Este seguramente é o maior reavivamento de todos os tempos, podendo ser conhecido também como uma nova reforma no meio eclesiástico. Após o pentecostalismo, surgiram novos derramamentos do Espírito em vários lugares do mundo e com as mais diversas denominações, levando Igrejas históricas a reverem o seu posicionamento teológico concernente à contemporaneidade dos dons espirituais.

A Importância dos dons e o equilíbrio

Os dons são muito importante, por meio deles igreja é fortalecida, entretanto, muitos pastores e teólogos evitam pregar ou ensinar sobre os dons por causa dos exageros, já outros líderes, passam a desprezar a teologia bíblica e se envolvem em uma busca frenética por dons espirituais, o que acaba gerando o emocionalismo e o exagero.  Portanto, devemos buscar os dons espirituais com equilíbrio e maturidade.

A Importância dos dons na Igreja atual

Enfim, toda pessoa salva possui dons espirituais, como também toda igreja local, sendo o estudo dos dons responsabilidade dos ministros. O pastor Purkiser, da Igreja do Nazareno, tratando do tema, é enfático: “Toda a verdadeira função do corpo de Cristo tem um membro capaz de executá-la, e cada membro tem uma função a executar”. Paradoxalmente, muitos crentes passam anos na igreja sendo imparciais diante desse assunto, ignorando-o e gerando falta de conhecimento bíblico: “A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes” (1 Co 12.1). Todos nós fomos chamados por Deus para desempenhar uma função no Reino e precisamos ser equipados com os dons necessários para o serviço cristão, já que, no exercício dos dons, existe prazer.

[1] CHAMPLIM, Russel Normam. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Editora Hagnos: São Paulo, 2006.
[2] MARTINS, Orlando. A Educação Teológica Formal e a experiência  religiosa nas Assembléias de Deus: conflito e dialética. Monografia Lato sensu. Faculdade Dom Bosco. Cascavel, 2017.
[3] MARTINS, Orlando. O Espírito Santo: uma introdução teológica a pessoa e a obra. Editora AD Santos: Curitiba, 2017.
[4] ABADIA, Joacir Soares. 07 de maio de 2009. Disponível em: http://www.vidapastoral.com.br/artigos/patristica/o-espirito-santo-nos-padres-da-igreja. Acesso em 18 mar. 2018.
[5] IRINEU. Contra os heresias V, 6,1.
[6] ORÍGENES. Contra Celso I, 46.
[7] SANTOS, Heladio. O Montanismo emergiu do catolicismo? 03 de Abril de 2017. Disponível em: http://teologiacarismatica.com.br/o-montanismo-emergiu-do-catolicismo/ Acesso em 18 mar.2018.
[8]  BUSENITZ, Nathan. A Cessação dos dons apostólicos.  Disponível em: < https://www.internautascristaos.com/textos/artigos/a-cessacao-dos-dons-apostolicos> apud in: Agostinho. Homilias sobre a Primeira Epístola de João, 6.10. Cf. Schaff, NPNF, First Series, 7:497-98. Acesso em 18 mar. 2018.
[9] LOPES, Augustus Nicodemus. Calvino o teólogo do Espírito. Editora PES: São Paulo.
[10] GRUDEM, Wayne. O Dom de Profecia. Editora Vida: São Paulo, 2004.
[11]   CHAVES, Pedro Jonatas da Silva. Raízes históricas do pentecostalismo moderno. Azusa: Revista de Estudos Pentecostais, Joinville, v. 7, n. 1, p. 75-92, jan. /jun. 2016.

Orlando Martins

Vice-presidente da AD Mais de Cristo em Florianópolis, Pastor-Auxiliar, Bacharel em Teologia e Jornalismo. Especialista em Educação, Mestrando em Teologia na EST. Escritor, Diretor da Faculdade Mais de Cristo. Professor universitário e de matérias teológicas em seminários e faculdades no estado de Santa Catarina. Casado com Cleusa de Oliveira Martins. Pai de Larissa Eduarda de Oliveira Martins.