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Ministério Rhema vira ré em caso de trabalho escravo acusada de maus-tratos

 Culto na igreja Ministério Rhema

Culto na igreja Ministério Rhema

Ministério Evangélico Comunidade Rhema, acusada de submeter fiéis, inclusive menores de idade, a trabalho forçado, virou réu em ação movida pelo Ministério Público do Trabalho.

Uma ação civil pública foi ajuizada pela procuradora Andrea da Rocha Carvalho Gondim, onde processa a igreja, os pastores que a fundaram, Juarez de Souza Oliveira e sua mulher, Solange da Silva Granieri Oliveira e o colégio ligado à Rhema.

Na ação, a procuradora pede que igreja e colégio sejam suspensos preventivamente e depois dissolvidos definitivamente, por desvio de finalidade.

Segundo Gondim, os depoimentos colhidos na investigação apontam para trabalho não remunerado mediante pressão psicológica e coação.

No processo, o casal Oliveira e seu filho, advogado deles, afirmam a existência de trabalho não remunerado no colégio, mas dizem que os fieis que participavam eram voluntários e negam exploração e coação.

“As ameaças de castigo e exclusão da comunidade são claras. Trabalho escravo não é só o acorrentado, mas o que tira a livre autodeterminação”, afirma a procuradora, segundo a qual não é possível, neste caso, falar em trabalho voluntário.

A ação civil pública foi necessária, segundo Gondim, porque a direção da igreja se negou a assinar termo de ajustamento de conduta para regularizar a situação de seus funcionários e indenizar as perdas passadas.

O trabalho irregular, segundo a ação, acontecia também em empresas de diretores da igreja (uma serralheria, uma fábrica de moldura e um salão de cabeleireiros).

Os empresários “se utilizariam dos ‘pecados’ dos fiéis como desculpa para não pagamento ou atraso de direitos trabalhistas”.

Na ação da Procuradoria Regional do Trabalho da 2ª Região, fiéis descrevem terem sido forçados a trabalhar também para a Word of Faith, igreja localizada em Spindale, nos Estados Unidos.

A Procuradoria afirma haver sinais claros de ligação entre a Rhema e a Word of Faith e pedem que se investigue financiamento de qualquer tipo entre as igrejas, “porque ninguém abriria mão da própria autonomia em nome de um pastor de outro país, se não houvesse benefício mútuo, inclusive financeiro”.

A ação cita casos de alunos que terminaram o ensino médio e foram impedidos pelos pastores de entrar na faculdade porque deveriam antes prestar trabalho voluntário na igreja dos EUA.

As empresas americanas Two Mille Supply, Plastic Oddites, Inter e Integraty são citadas por explorar a mão de obra gratuita dos membros.

Depoimentos colhidos pelo Ministério Público falam em alunos proibidos de frequentar aulas e castigados com golpes de régua de madeira nos quadris, dados pela própria pastora Solange.

Os alunos do período matutino, segundo os depoimentos, “eram escalados para capinar ou trabalhar em outros reparos do local à tarde e até mesmo em mutirão noturno” e “as crianças eram ensinadas a não argumentarem nem questionarem”.

A investigação aponta que o colégio Rhema tem 25 professores, dos quais apenas 3 são registrados.

Embora os fiéis trabalhassem de graça, há registro de pagamentos de salários para pastores e diretores da igreja, com valores que vão de R$ 3.000 a R$ 5.000.

A ação também cita a transferência para os pastores de dois terrenos que haviam sido comprados pelo coletivo dos fieis, à revelia deles.

Fonte: Folha de São Paulo

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Justiça condena a Igreja Universal a devolver bens doados por fiel

Fachada de um templo da Igreja Universal do Reino de DeusFachada de um templo da Igreja Universal do Reino de Deus

A gaúcha Carla Dalvitt estava com problemas financeiros quando começou a frequentar a Igreja Universal do Reino de Deus, onze anos atrás. A pequena loja que tinha com o marido estava com pouco movimento, e havia várias prestações para pagar – ela e o marido, João Henrique, tinham acabado de comprar um Palio para levar o filho pequeno dos dois à escola. O casal queria construir uma casa, mas, sem dinheiro, estava morando na residência dos pais dela.

Mas o que ela esperava que representasse uma saída para sua crise pessoal acabou se tornando um pesadelo, conta hoje. Carla diz que foi coagida pela congregação religiosa a doar a ela tudo o que tinha e acabou ficando sem dinheiro, sem carro e mal falada na pequena cidade onde mora, Lajeado, no interior do Rio Grande do Sul.

Ela afirma que mudou de ideia logo em seguida, mas que a igreja se recusou a devolver sua doação. Foi quando decidiu entrar, ao lado do marido, com uma ação judicial contra a Universal pedindo de volta os valores dos bens e uma indenização por danos morais.

Em 2012, o grupo religioso foi condenado a pagar uma indenização de R$ 20 mil e devolver o valor de parte dos bens que a gaúcha diz ter doado. A igreja recorreu, e o caso foi parar no Superior Tribunal de Justiça (STJ), corte na qual o recurso da igreja foi negado em uma decisão na semana passada. Ainda cabem novos recursos.

Procurada pela BBC Brasil para comentar o caso, a Igreja Universal do Reino de Deus não respondeu às perguntas feitas pela reportagem. Enviou uma nota dizendo que “o dízimo e todas as doações recebidas pela Universal seguem orientações bíblicas e legais, e são sempre totalmente voluntários e espontâneos”.

Carla conta que resolveu começar a frequentar os cultos após ver pastores falando na TV. “Eram mensagens positivas, de esperança, prosperidade. Tinha muitos depoimentos de gente que falava que tinha saído de crise, gente que dizia que devia à igreja tudo o que tinha”, diz.

A gaúcha também conhecia pessoas que frequentavam a igreja – e falavam sempre bem. Seu marido não a acompanhava, mas também não se opunha à atividade religiosa da mulher.

Ela diz que as doações que fez à Igreja começaram com o dízimo. O problema, afirma, é que não pararam por aí.

“Eles diziam que você tinha que dar 10% de tudo o que você ganhava, e que tudo o que você desse, ia receber de volta”, conta. “O problema é que tinha um evento especial, a Fogueira Santa, onde as pessoas iam e doavam casa, carro. E eu não sei o que me deu… Eu estava desesperada.”

Carla afirma que havia um evento em que os fiéis faziam promessas de doações, no qual ela disse que entregaria suas posses à igreja.

“Depois disso eu fiquei na dúvida, pensei em desistir. Mas eles sempre falavam que tinha uma maldição para quem prometeu e não doou, que a pessoa ia ser amaldiçoada”, diz. “E eu fiquei pensando na maldição, com medo da maldição.”

Carla então vendeu o carro por um valor bem abaixo do valor de mercado – já que o comprador teria que pagar o resto das prestações – e doou o dinheiro à igreja.

E deu também, segundo ela, um colchão, um computador, dois aparelhos de ar condicionado que vendia em sua loja, joias,um fax, uma impressora e alguns móveis de cozinha que sua mãe havia acabado de comprar. Tudo isso escondido da família.

“Aí, quando cheguei em casa, que meu marido descobriu, aí que me deu um chacoalhão, que eu acordei. Não sei o que tinha aconteceu, eu estava mesmo… Era como se eu tivesse sofrido uma lavagem cerebral. Como se tivesse uma nuvem preta sobre minha cabeça, e quando meu marido conversou comigo ela foi embora. Me senti muito mal”, afirma.

Carla e João Henrique

No mesmo dia, ela, a mãe e o marido foram ao templo tentar recuperar os bens doados. Conseguiram levar de volta o colchão, o fogão e os outros itens de cozinha – mas apenas porque a mãe de Carla ainda tinha nota fiscal de tudo, de acordo com seu relato.

A gaúcha diz que nenhum dos outros itens foi devolvido. “A gente implorou, insistiu muito, mas eles disseram que não iam devolver.”

Ela então registrou um boletim de ocorrência e procurou um advogado.

“Já fui procurado por pessoas com casos parecidos, mas nem todo muito tem coragem de seguir com o processo – é demorado e desgastante. Ela foi muito corajosa”, afirma Marco Alfredo Mejia, advogado de Carla no caso.

“Eu jamais teria entrado na Justiça se eles tivessem me devolvido na hora”, argumenta ela.

No processo, a Igreja Universal se defende dizendo que não há comprovação da doação de itens como as joias e o dinheiro do carro – o que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul acatou. A entrega dos celulares, da impressora e dos aparelhos de ar condicionado, no entanto, foi comprovada, e o tribunal entendeu que se tratava de “coação moral irresistível” e “abuso de direito”, por isso estipulou a indenização.

A decisão foi confirmada pelo STJ na semana passada, mas a igreja ainda pode recorrer.

A gaúcha afirma que, além do grande prejuízo financeiro, todos na cidade ficaram sabendo do caso, o que a prejudicou muito. Ela acabou fechando a loja que tinha. Ficou sem carro, sem dinheiro, sem negócio – ou seja, em uma situação pior do que a que estava antes.

“Por sorte uma pessoa de bom coração em deu um emprego de vendedora e, aos poucos, eu fui reconstruindo. Antes teria dado também, mas eu estava desesperada e fui enganada. Quem abriu meus olhos foi o meu marido, ele me disse que Deus não ia colocar maldição em ninguém, que Deus não faz isso. E ele tem razão”, diz Carla.

Ela hoje diz acreditar em Deus – mas não ter mais nenhuma religião.

Fonte: BBC Brasil

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“Teologia da prosperidade é a ‘bela mentira’ que a igreja ama”, alerta teóloga

Doutora em teologia, Kate Bowler se aprofundou no tema após ser diagnostica com câncer

          “Teologia da prosperidade é a ‘bela mentira’ que a igreja ama”

Uma professora de teologia de uma universidade renomada nos EUA vinha se dedicando há anos ao estudo da “teologia da prosperidade”. Contudo, sua vida mudou após ela ser diagnosticada com câncer.

Kate Bowler, da Duke Divinity School em Durham, Carolina do Norte, decidiu escrever um livro contando como mesmo para alguém criada na igreja e com formação teológica é fácil ser enganado pelo discurso do púlpito de que “saúde e prosperidade material” são consequências naturais da fé.

O argumento central de seu livro Everything Happens for a Reason: And Other Lies I Loved [Tudo acontece com um propósito e outras mentiras que amamos] é que existem certos chavões repetidos exaustivamente nas igrejas que nunca fizeram parte do evangelho. Para a autora, essa é mais uma “bela mentira” amada e repetida na igreja sem que se faça uma análise sobre o que isso realmente significa.

Dois anos atrás, aos 35 anos, Bowler foi diagnosticada com câncer de colo de útero, em estágio avançado. Era um tumor agressivo e “incurável”, que acabou se espalhando por seu fígado. Desenganada pelos médicos, ela decidiu escrever sobre sua crença de que esse tipo de situação não poderia acontecer com “pessoas como ela”.

Sua conclusão é que os cristãos estão acostumados com “clichês” sobre fé que, na verdade, são mentiras, mas que fazem os fiéis sentirem-se bem. Ela já havia escrito outra obra sobre o tema em 2013: “Blessed: A History of the American Prosperity Gospel” [Abençoado: A História do Evangelho da Prosperidade].

Oriunda de uma família batista tradicional, ela passou a ser influenciada pela pregação que via na televisão nos anos 1990, no auge de pregadores como Benny Hinn.

Bower relata que crê na cura divina, mas que desconfia da aparente “facilidade” que isso ocorre em frente as câmeras nas cruzadas de grandes expoentes desse tipo de ministério.  Suas críticas também incluem pregadores como Rick Warren, que apresenta um evangelho onde tudo ocorre com um “propósito”. Não por acaso esse é o nome de seus livros mais famosos: “Uma igreja com propósitos” e “Uma vida com propósitos”.

Segundo a erudita, esse tipo de discurso gera nas pessoas uma “supervalorização” das dificuldades e sofrimentos da vida que acaba sendo prejudicial para os cristãos, uma vez que não se sustenta à luz das Escrituras.

“O que consumimos no banco da igreja é, cada vez mais, uma teologia onde tudo é progresso para nossa vida, até mesmo as dores… Eu não acredito mais nisso. Durante muito tempo acreditei que a vida era apenas uma série de ‘escadas’ e, se eu continuasse me esforçando, chegaria a algum lugar de sucesso”, explica.

Contudo, o diagnóstico de câncer mudou toda a sua perspectiva de vida. E, consequentemente, do que ela cria. Bower não acha que o evangelho é o oposto, apenas sofrimento, mas entende que geralmente o assunto não é tratado de forma sadia nas pregações.

“[Durante o tratamento do câncer] Eu senti a presença de Deus. Senti também o amor de outros cristãos. Quando comuniquei que estava doente, minha igreja orou por mim, fizeram até uma corrente de orações para que eu fosse curada”, revela.

Ainda em tratamento, além do livro ela tem escrito alguns artigos sobre o tema. Na revista Vox  ela faz uma longa reflexão sobre o que chama de “Deus do Se” – se eu orar, se eu contribuir, se eu crer…

Ela testemunha: “Antes da doença, eu estava mergulhada na expectativa da eterna juventude. Minha vida era algo que eu poderia conduzir, ou pelo menos tentar, se tivesse determinação o suficiente. Eu tinha a confiança ilimitada que o evangelho da prosperidade chama de ‘vitória’. Nada estava além da minha capacidade de crer…. O que faz a teologia da prosperidade ser popular é a promessa que teremos uma vida sem dificuldades ou que tudo pode ser restaurado em algum momento. Mas a verdade é que, muitas vezes, estamos presos em corpos fracos, vivendo relacionamentos difíceis e situação que fogem ao nosso controle… Eu sempre amei ouvir sobre a garantia que ‘o melhor ainda está por vir’, trechos de versículos aliados a conselhos otimistas de pastores e amigos… Porém, só o que me restou agora, contemplando a proximidade da morte iminente, é saber que Deus me salvou”. Com informações de Christian Post